Gemidos da Senzala

Durante anos mantive secreta em minha mente a lembrança daquela situação estranha, para não dizer horripilante. Hoje transcrevo os acontecimentos como forma de aliviar minhas memórias. Garanto que a história é verdadeira, embora saiba que um leitor incrédulo não a aceitará…

Herdei um antigo engenho num município da Zona da Mata de Pernambuco. Nele não se produzia mais açúcar desde o século passado, mas ainda era uma bela propriedade, com uma casa estilo colonial, um amplo terreiro ao redor e a velha senzala onde, em tempos remotos, moravam os escravos. Por décadas, ninguém morava no local. Mas, na intensão de preservar o patrimônio da minha família, resolvi reformar a casa-grande para que pudesse viver nela algumas épocas do ano e também tornar o imóvel vendável.

No período de reforma, nenhum grande problema aconteceu. Apenas sumiços de ferramentas e materiais, que eu atribuía à desonestidade dos empregados. Terminados os trabalhos, pude me instalar no casarão. Era mês de dezembro e eu estava de férias. Quando os carregadores puseram para dentro os últimos móveis, tratei de cuidar dos meus dois cães: macho e fêmea estavam nervosos e estressados por causa do movimento fora do comum.

Observei atentamente a senzala: uma casa baixa e segura. Estranho imaginar um grande número de escravos em um espaço tão pequeno. Mas naquela hora era apenas um abrigo para cachorros que precisavam ser lavados. A cadela foi a primeira a expressar aversão ao lugar. Ganiu e chorou quando tentei levá-la para dentro. O macho juntou-se a ela num coro de uivos. Não pude resistir, deixei-os soltos.

Na primeira noite em minha nova casa, não tive nenhum problema. Dormi pesadamente devido à exaustão. De manhã, ao levantar, percebi que todas as janelas do andar térreo estavam abertas. Verifiquei se havia sinais de ladrões, mas não vi nenhum. Julguei que as janelas mal fechadas foram abertas pelo vento. Realmente havia folhas e penas de aves no chão da sala, como se houvesse ventado muito.

No segundo dia os cães se mostraram irritados. Eu também estava sem paciência. A casa era muito grande e estava muito suja. Eu não havia ainda contratado empregados, por isso tinha de trabalhar só. Terríveis manchas negras nas paredes não saiam de maneira nenhuma, nem com cloro eu fui capaz de apagá-las. Quanto mais eu as olhava, mas pareciam rostos! Imaginei que um dos pedreiros as havia feito com tinta preta.

À noite, meu sono foi interrompido pelo barulho das janelas e grandes estrondos no andar térreo. E um menino negro apareceu ao lado da cama. Saltei depressa com o susto e ouvi-o falar com um sorriso irônico:

– Tu não me feres…

O menino apontou para a janela. Olhei e vi pessoas dançando perto da velha senzala. Invasores usando minhas terras para uma festa? Era muita ousadia. Saí para o quintal. Chegando à senzala, não havia mais  ninguém! O menino também fugira sem nenhum sinal.

De manhã, olhei o quintal, e no chão havia restos de vela e gotas de sangue. Nesse dia, saí para comprar mais duas cadelas. Talvez quatro cães fossem suficientes para deter os invasores. Descobri outra mancha negra, desta vez no chão da garagem. Essa mancha mostrava um rosto muito feio; “obra de um pichador iniciante”, pensei.

À noite, senti um peso enorme sobre mim, como se alguém pisasse em meu corpo. Não sei se era sonho, mas acordei com manchas vermelhas no lugar das pisadas. Novamente as janelas amanheceram abertas. Isso me preocupava muito por causa da presença de invasores.

No quinto dia em que estava naquela casa, acordei pensando se havia visto ou não pessoas correndo pelos cômodos. Eu estava realmente com medo. As marcas vermelhas em minha pele agora doíam como queimaduras. Sons estranhos vinham do corredor. Não tive ânimo para fazer nada naquele dia. Fiquei na cama o tempo todo ouvindo os estrondos no andar de baixo e o choro dos cães. Ao meio-dia das paredes a vir sons terríveis que pareciam gemidos. Aí foi a gota d´água! Não pude mais suportar e deixei a casa às pressas, levando apenas os cães comigo.

Na semana seguinte, um amigo me disse para procurar um padre. Indicou-me um conhecido e esse padre exorcizou o casarão. Mas não tive coragem de voltar lá depois do ritual. Vendi o velho engenho por um bom preço – acredito que hoje tenha se tornando um clube de campo ou algo assim. E com essas últimas palavras, apago de minha memória as lembranças desses dias que passaram.

Contado por um leitor anônimo

  • Nildinho Junior

    Tem uma história na família que tinha um táxi assombrado. Como faço para contar??