O Herói do Quartel
O relato a seguir nos foi enviado por um aluno
da década de 90 do Centro de Preparação de Oficiais da
Reserva - CPOR - que prefere manter-se no anonimato.
Contava eu 19 anos de idade e prestava meu serviço militar no quartel
do CPOR do Recife, no bairro de Casa Forte. Lá eu era aluno à
oficial e como todo o aluno, participava da escala de serviço ficando
de sentinela várias vezes por mês. Certa ocasião, estava
escalado para tirar serviço do sábado para o domingo, meio aborrecido
por ter que cumprir esta obrigação, ficando dentro do quartel,
dormindo pouco, passando várias horas em pé e com um fuzil a
tiracolo.
Sem ter como escapar, me preparei e sai cedo de casa e já no quartel
tiramos a sorte para ver quem pegava os melhores postos (os melhores eram
os que ficavam na frente do quartel, pois de lá poderíamos ver
o movimento da rua, as pessoas passando, conversar com alguém de vez
em quando e assim o tempo passava mais rápido. Os piores eram os postos
que ficavam nos fundos do quartel, sem movimento, no escuro e onde passávamos
horas sozinhos e sem o que fazer). Sendo assim participei do sorteio e para
meu azar tirei o posto da Engenharia (que fica por trás do curso de
Engenharia, nos fundos do quartel, próximo à garagem das viaturas,
um dos piores).
Lá pelas quatro da tarde, entrei em mais um horário (quarto
de hora como é chamado) e assumi o mesmo sem nenhuma alteração.
Mais ou menos meia hora depois que entrei no posto, estava quase cochilando
encostado a uma viatura quando escutei passos vindo em minha direção,
imediatamente me arrumei e fiquei atento porque era costume o sargento de
dia ou o oficial de dia fazerem "visitas inesperadas" aos postos
para pegar os mais desatentos e lhes aplicar as temidas "punições",
por qualquer irregularidade que se estivesse cometendo.
Esperei para ver quem se aproximava e qual não foi minha surpresa quando
verifiquei que era um Tenente, usando uniforme de passeio. Achei muito estranho,
mas o que faria um oficial, em pleno domingo, usando uniforme de passeio,
lá pelos fundos do quartel, mesmo porque nunca tinha visto aquele oficial
antes. Ele veio em minha direção com olhar fixo e expressão
séria. Imediatamente assumi posição de sentido e como
estivesse com o fuzil em bandoleira cruzei o mesmo na altura do peito, o oficial
respondeu a continência e falou com tom solene:
- Alguma alteração no seu posto "guerreiro"?
Sem entender direito me apressei em responder:
- Não, senhor; nenhuma alteração!
O estranho oficial fez um ar de contentamento e alertou:
- Então fique em alerta, devemos nos precaver
porque podemos ser vítimas de um ataque a qualquer momento!
- Sim, senhor!, respondi em sinal de obediência
e como curiosidade, olhei a sua identificação no bolso esquerdo
do uniforme e pude ler claramente Tenente Sampaio.
Ao final deste diálogo, o tenente me deu as
costas e se afastou indo desaparecer por trás do prédio do curso
de comunicações. Julgando que essa teria sido a visita de algum
oficial que por acaso estaria executando algum serviço de inspeção
no quartel, continuei normalmente em meu posto e em alerta máximo,
esperando o tal ‘ataque’, inclusive me assustando várias
vezes com ruídos provocados por vizinhos ao quartel e pensando mesmo
em carregar o armamento dando um golpe de segurança no fuzil para inserir
um projétil em sua câmara, deixando-o pronto para a ação.
Como nada aconteceu completei meu "quarto" e fui substituído.
Durante minha hora de folga, perguntei aos colegas o que teriam dito ao oficial
que passou inspecionando os postos naquela tarde, todos riram muito e me perguntaram
se eu teria levado alguma bebida para o serviço, contei a história
para eles e a galhofa foi maior ainda, todos me acusando de ter "torado"
(dormido) durante o serviço, como percebi que estava em meio a um assunto
embaraçoso deixei o caso de lado e para não sofrer mais humilhações
dos colegas pelas minhas visões "bisonhas" acabei me calando.
Durante semanas, tentei descobrir quem era o misterioso oficial que teria
visitado o quartel naquele sábado à tarde e não consegui
nenhuma informação, nada, nenhum vestígio, tanto que
acabei por dar o assunto por encerrado e julgando mesmo que o melhor seria
esquecê-lo. Alguns meses depois em uma solenidade dentro do quartel
o comandante em uma palestra falando sobre a história do CPOR do Recife
comentava sobre os fatos marcantes que teriam ocorrido com nossa corporação
no decorrer de sua história. Comentando sobre os fatos ocorridos em
1935, quando o CPOR ocupava o quartel da Rua do Hospício, onde foi
palco de trágico evento, durante a chamada "Intentona Comunista",
quando tombou morto o Primeiro Tenente José Sampaio Xavier, vítima
da ação do Sargento Gregório Bezerra, amotinado por ocasião
do movimento revoltoso.
No momento que escutei o nome do oficial imediatamente me veio à mente
a identificação do Tenente que tinha me visitado naquele sábado
em meu serviço de guarda: Tenente Sampaio. Um arrepio frio me percorreu
a espinha e mais ainda quando escutei da boca do nosso comandante a descrição
do herói do CPOR, que batia justamente com as características
físicas do misterioso oficial que tinha me abordado e me prevenido
de um "ataque iminente" naquela tarde!
Entrei em parafuso: tinha sido testemunha de uma aparição fantasmagórica
que tinha inclusive conversado comigo e cheguei a comentar com alguns colegas
de confiança, que com certeza riram muito de mim e me aconselharam
a parar de fazer uso de qualquer substância que estivesse usando para
segurar o sono durante o serviço, como não encontrei apoio em
ninguém para meu drama e como também não encontrei explicação
para o que aconteceu silenciei para sempre, o certo é que nunca mais
tirei serviço nos postos de trás do quartel...
Estive guardando este acontecimento por muitos anos.
Mas agora, lendo estes relatos, me animei em revelar o que aconteceu comigo. |