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Caso de Papa-figo?

Por Elisângela Dias

Era o ano de 1938. Um amigo do meu avô trabalhava como motorista em um enorme e sombrio casarão do Bairro dos Aflitos, lugar nobre e muito misterioso que fica próximo aos bairros do Espinheiro e das Graças - imediações que, por causa das inúmeras árvores naz ruas, tornam-se sombrias mesmo no sol alto do meio-dia.

E era nesse bairro, onde os patrões de Seu Lopes (chamarei assim o amigo do meu Avô) vieram morar. Eram pessoas caladas e escolheram os empregados quase a dedo. Seu Lopes foi indicado a eles pelos antigos patrões por ser pessoa muito discreta e calada. Ao chegar no novo emprego, ele foi recebido por uma senhora muito educada e também discreta que explicou todo seu trabalho. Porém senhor Lopes estranhou o fato daquelas pessoas preferirem sair sempre ao cair da tarde para ir sempre ao mesmo, local - um antigo hospital que ficava no Bairro da Boa Vista.

Com o passar do tempo, Seu Lopes ficou sabendo que aquela tão recatada família tinha vindo do interior de Pernambuco para fazer um tratamento médico no filho. E parecia ser um tratamento muito complicado. Também era estranho o fato do pai e a mãe daquele pobre rapaz serem tão parecidos fisicamente.

Entre os empregados, corria o boato que os patrões eram parentes muitos próximos que se casaram, e o fruto desse casamento consanguíneo gerou uma pobre criatura que era levada ao médico sempre encoberta por vestimenta com capuz que lhe cobria o rosto. Uma tarde, o dono da casa pediu para que o Seu Lopes fosse ao porto do Recife buscar uma pessoa que havia chegado de navio. E esse homem era a promessa de cura do misterioso rapaz.

No dia seguinte, o amigo do meu avô foi mandado, em companhia de outro empregado da casa, até um mercado publico da cidade para comprar alguns objetos muito estranhos - coisa que o recém chegado havia pedido para o tratamento do rapaz. Foi tudo comprado de acordo com a lista. E naquele dia todos os empregados tiveram folga nesse dia. E folgas assim, sem explicação, se repetiram de tempos em tempos - sempre que eram comprados os objetos no mercado.

Porém, em uma das tardes em que tinha que levar o rapaz ao tratamento no hospital, Seu Lopes foi chamado mais cedo e se deparou com o tal rapaz sem a capa. Qual não foi seu espanto quando viu aquela pessoa tão pálida e com os dentes tortos, que chegava a lembrar uma figura de filme de terror. O adolescente foi levado ao médico. No caminho ele não se protegeu contra a luz da tarde. A consulta dessa vez demorou mais que o normal. E, como voltaram muito tarde, Seu Lopes teve que dormir junto aos empregados do casarão - era difícil transporte público noturno naquela época.

Como Seu Lopes nunca havia dormido fora de casa, estranhou a cama a passou a noite em claro. Quando caminhava pelo quintal reparou numa cena espantosa: O homem misterioso, que ele mesmo foi buscar no porto do Recife, estava de joelhos falando umas palavras estranhas. Nesse momento seu Lopes afastou e se escondeu por traz de uma planta grande de onde pode ver o que preferia nunca ter visto.

Completamente perturbado, o rapaz foi trazido por dois homens e pelo pai. Enquanto isso, o homem estranho pegou uma pessoa, que pelo tamanho parecia ser uma criança, e sem dó, sacrificou a pobre. Fez com que o rapaz tomasse a maior quantidade de sangue possível da vítima.

Seu Lopes ficou tão desesperado que não conseguia se mover dali e acabou desmaiando. Ao primeiro raio de sol, com o calor, ele despertou, juntou forças e foi embora daquele lugar, sem quere nem receber o seu pagamento. Nunca mais passou próximo à casa.