Histórias Assombradas de Ariano

O escritor Ariano Suassuna

“Aconteceu em 2001: o jornalista Roberto Beltrão, um dos editores do site O Recife Assombrado, estava presente a uma entrevista que uma colega fazia com o escritor Ariano Suassuna, autor da peça “O Auto da Compadecida” e do romance “A Pedra do Reino”, entre outras tantas obras.

Aproveitando a oportunidade, Beltrão perguntou a Ariano se ele, como conhecedor do imaginário popular nordestino, gostava de alguma lenda de assombração ou lembrava de alguma ocorrência sobrenatural. O autor respirou fundo, fez um expressão enigmática e contou dois casos teriam se passado com a família dele:

“Eu me lembro de uma história que minha mãe falava. O fato curioso é que minha mamãe não acreditava em assombração. Ela contava essa história justamente para tirar o medo da gente. Ela contava pra gente se convencer de que não existia assombração e a gente acabava convencido de que exista. Veja a história que ela contou: A irmã mais moça de minha mãe, Maria das Neves – Tia Neves, a mais nova de seis irmãos – tinha ganho um anel de uma tia dela. Quando ela cresceu e engordou, o anel ficou apertado.Tanto que era uma dificuldade para sair. A tia que deu o anel de presente ficou doente. E quando foi um dia, de madrugada, Tia Neves sonhou que a tia estava tentando tirar o anel do dedo dela para colocar em outro dedo. Tia Neves dizia: ‘num sai não, num cabe não!’ De repente ela deu um grito, acordou e estava com o anel no dedo da outra mão. Então ela disse: ‘minha tia morreu!’ E tinha morrido realmente. Para tranquilizar, mamãe dizia: ‘foi Neves quem tirou e botou o anel’. Eu fiquei foi com medo de assombração a partir daí.”

“Agora, eu nunca vi nada. E tenho muita vontade de ver, pois seria uma confirmação para mim de coisas em que eu acredito. Eu só ouvi uma história que me convenceu pela credibilidade que a pessoa merece. Gosto muito do Padre Daniel Lima e um dia me contaram um caso que teria acontecido com ele. Eu pensei: ‘quando me encontrar com o Padre Daniel, vou pedir para ele me confirmar’. O Padre era de Nazaré da Mata. Certa vez, ele acordou-se à noite para ir ao banheiro. E quando se dirigia ao banheiro, viu dentro de casa um tenente que era amigo dele e morava no Recife. O Padre disse: ‘Tenente, o senhor aqui?’. Nesse momento, o tenente desapareceu. Na primeira vez que veio ao Recife, o Padre foi ao Quartel-general, se informou e descobriu que o tenente havia morrido.”

Ariano Suassuna faleceu no Recife, em julho de 2014, deixando um inestimável legado para a cultura brasileiras nos tantos livros e peças teatrais que escreveu e nos ideais do chamado “Movimento Armorial”, do qual foi o criador.