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O Holandês

Por Carlos Alberto Cordeiro

Muita gente não acredita nesta história que eu vou contar. Mas eu garanto que é bem verdadeiro o fato fantástico do qual fui testemunha no ano de 1979. Eu tinha dez anos e recebi o convite de um colega de classe para passar uma semana no engenho do avô dele durante as férias de julho. Não fazia idéia do ia acontecer.


O engenho de cana-de-açucar, típico da Zona da Mata de Pernambuco, era uma ótima propriedade. E tinha tudo que um garoto pode querer: espaço para correr, cavalos para passear, frutas colhidas nas árvores e até uma bica de água corrente para tomar banho. A coisa ia bem, até que, na quinta noite em que estávamos lá, um trabalhador do engenho interrompeu o nosso jantar aos berros. Ele se chamava Biu Preá e estava apavorado. A cozinheira deu ao coitado um copo com garapa e, quando ele se acalmou, contou o que tinha ocorrido ao avô do meu amigo.


Biu Preá disse que estava sentado na escada que dava acesso ao terraço da casa grande do engenho, "picando fumo para fazer um cigarrinho", quando olhou para baixo e viu os pés de um sujeito muito estranho. Calçava sapatos pretos com fivelas. Ele foi "subindo a vista" para ver quem era aquele: tinha "uma roupa do tempo antigo, com uma gola cheia de renda". No rosto ostentava uma "barbicha". Surpreso, Biu Preá tentou encarar aquela figura esquisita, mas o homem simplesmente desapareceu no ar. Era um fantasma, "um malassombro".


O senhor do engenho deu uma risada e disse que Biu tinha visto um fidalgo Holandês do século XVII. Naquela época, os flamengos dominavam Pernambuco e muitos possuíam terras naquela região. O agricultor coçou a cabeça, sem entender muito bem a explicação do patrão. Mas não se furtou de tirar sua própria conclusão sobre o caso: "essa alma deve estar penando por causa de uma botija. Vai ver ele quer me mostrar onde estão os cobres". E pediu ao dono a permissão para procurar o tesouro na área do engenho, no que foi prontamente atendido.


O trabalhador parecia mais um tatu fazendo dezenas de buracos por toda a propriedade. Mas sua precária arqueologia em nada resultou a princípio. O resultado mais interessante da sua pesquisa foi a descoberta do esqueleto de uma vaca, que não era tesouro muito menos do período holandês. Biu Preá ficou desanimado e até quis desistir da busca. Mas um sonho revelador deu uma nova esperança ao camarada. Durante o sono, o fidalgo voltou a entrar em contato com ele. O misterioso europeu apareceu no meio do terreno; falava uma língua estranha e, com a mão, apontava para uma pedra grande que existia na propriedade.


Biu começou a escavar em torno da tal pedra naquela madrugada, antes mesmo do sol nascer. Encontrou coisas valiosas, em nada perecidas com a botija que sonhava: pedaços de louças e cachimbos feitos de barro que realmente eram do tempo dos holandeses. O sitiante ficou decepcionado, mas pelo menos ganhou uma boa recompensa em dinheiro, dada pelo patrão por causa da descoberta. O detalhe mais curioso: o fantasma do fidalgo holandês passou a ser visto com freqüência por várias pessoas que moravam no engenho. Será que ainda existe um tesouro de verdade escondido no lugar?