O Homem da Capa Preta
Por Deane Alcoforado Lopes Cunha
No final da década de 60, mais precisamente
em 1968, meus pais, juntamente com meu irmão e minha irmã mudaram-se
para uma casa no tradicional bairro de Apipucos, próximo ao açude.
A casa era muito agradável, tinha um imenso jardim com muitas árvores
frutíferas. Nasci no ano de 1970 e o meu irmão caçula
no ano de 1973. Lá vivemos nossa infância e fomos muitíssimo
felizes.
Como os nossos avós residiam em outro estado, sempre viajávamos
para passar as férias de final de ano com eles. Querendo evitar que
a casa passasse muito tempo trancada e sem ninguém, meus pais recomendavam
ao jardineiro, o "seu" Joaquim, que lá dormisse. Quando chegávamos
de viagem, seu Joaquim dizia a meus pais que havia visto um homem todo vestido
de preto, com capa e chapéu da mesma cor saindo do quarto da frente,
passando pelo corredor e se dirigindo ao banheiro. Quando o procurava, dizia
o seu Joaquim, ele havia sumido. Outras vezes, o via caminhando pelo jardim,
em baixo da mangueira...
Minha mãe sempre pediu a seu Joaquim que não nos contasse nada,
pois ela achava que tudo era fruto da imaginação do jardineiro;
além do mais, ela não queria que ficássemos amedrontados.
Embora nenhum de nós nunca tivesse visto nada, eu me lembro particularmente
de um fato ocorrido naquela época que na ocasião não
me chamou muito a atenção: lembro que a porta do banheiro foi
inexplicavelmente trancada a chave por dentro e tivemos que chamar um chaveiro
para abri-la.
Em 1981, meus pais resolveram vender a casa e fomos morar em um apartamento
no bairro dos Aflitos. Saímos da casa com muitas saudades que perduram
até hoje. Meu pai dizia que já estávamos crescidos e
precisávamos morar mais perto das escolas onde estudávamos.
A casa foi comprada por um casal que também tinha quatro filhos.
Alguns meses depois de deixarmos a casa, fomos surpreendidos pela visita da
nova moradora, que estava um tanto aflita. Ao ver minha mãe, ela perguntou
logo por mim e meus irmãos. Diante da resposta tranqüilizadora
de minha mãe, ela passou a perguntar a minha mãe, na nossa presença,
se tínhamos visto alguma coisa estranha na casa de Apipucos. Ela passou
a relatar que um homem todo de preto, com capa e chapéu, andava aparecendo
na casa. Ela até fez algumas orações na casa pelo possível
espírito que lá rondava. Mas ele continuava a aparecer. Várias
pessoas o viram. Até que ela e toda a família abandonaram a
casa em plena madrugada, depois que todos os filhos do casal adoeceram ao
mesmo tempo e depois que um dos degraus da escada afundou após uma
aparição neste lugar.
Após abandonar a casa, o casal alugou-a e logo depois a vendeu. De
vez em quando, passo por lá e sempre me emociono com aquelas inesquecíveis
lembranças da infância. Notei que ela tinha sido reformada e
me perguntei se não foi isto que desagradou ao "morador".
Fiquei sabendo pelos vizinhos que hoje ela passa a maior parte do tempo desocupada.
Nunca mais ouvimos falar do Homem da Capa Preta.
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