Afogados
O bairro é um dos mais tradicionais
do Recife. Lugar de intenso comércio e muitas residências, tem
um amigável clima suburbano, com moradores que se conhecem e se cumprimentam
todos os dias. Lá os altos prédios não substituíram
as casas com quintais amplos. À primeira vista, ninguém é
capaz dizer que, à noite, Afogados é visitado por estranhos
espíritos e espantosas assombrações.
O nome do local já tem uma origem
macabra. Segundo o pesquisdor pernambucano Leonardo Dantas Silva - no livro
Arruando Pelo Recife - ali existia um afluente do Capibaribe chamado Rio dos
Afogados “onde , em 17 de fevereiro de 1531, sete marinheiros da expedição
de Martin Afonso de Souza vieram a perecer”. A via mais importante do
bairro é a Estrada dos Remédios, que tem 2.423 metros e foi
aberta em 1850. Na metade do século XX, a maior parte dos habitantes
de Afogados se concentrava na Vila dos Remédios, um conjunto residencial
às margens daquela estrada, que na época era cercada de árvores
sombrias. Nessas sombras se escondiam vultos misteriosos que provocavam tremendos
sustos nos passantes, principalmente os que seguiam de madrugada para a feira
livre realizada semanalmente na área. Eles ouviam apavorantes sussurros
e chegavam a ser perseguidos difusas aparições.
No começo da década de
60, uma assombração em particular trouxe medo à vida
dos moradores de Afogados. Era uma bela mulher, de cabelos escuros, vestida
com roupas decotadas e chamativas que caminhava sozinha pelas ruas do bairro
nas horas mortas. Sem pudor, se insinuava para todo tipo de homem que cruzasse
o seu caminho - jovem ou velho, solteiro ou casado, pobre ou rico. Quando
o desavisado caia em seus encantos, era levado para um beco escuro. Ao se
entregar às cariciais da moça, a vítima descobria que
estava abraçado a uma caveira! Os corajosos ainda saíam correndo
em pânico. Os covardes só eram encontrados pela manhã,
desacordados.
A mulher fantasma perpetrou tantos ataques
que os homens começaram a evitar andar à noite pelas calçadas
do bairro. Mas alguns, lamentavelmente, não podiam evitar correr esse
risco. Ficou famoso o caso de um senhor de seus cinqüenta e poucos anos
que teve um encontro nada agradável com a fêmea espectral. Ele
era civil, mas trabalhava como motorista numa instalação militar.
As horas extras eram freqüentes e, depois dessas jornadas esticadas de
trabalho, voltava para casa com passos apressados.
Numa dessas noites, quando Afogados
estava coberto por um manto de silêncio e trevas, o motorista seguia
seu trajeto costumeiro e percebeu que a tal mulher o espreitava numa esquina.
Ele fingiu que não viu e procurou andar mais rápido. Mas a assombração
foi em seu encalço e, por mais que o sujeito acelerasse, ela se aproximava
com passadas leves e ligeiras que só uma alma penada pode dar. O pobre
homem chegou esbaforido ao portão de casa, mas aliviado por achar que
estava em segurança.
Puro engano. Ele tinha atravessado o
jardim e tentava nervoso achar a chave para abrir a porta da frente, quando
percebeu que a mulher também tinha chegado ao portão. Ela o
atravessou sem precisar abri-lo e veio rebolando em direção
ao apavorado motorista que, a essa altura, já tinha deixado o chaveiro
cair no chão. Ficou a poucos centímetros do camarada e revelou
a ele uma face de caveira. A transformação veio acompanhada
de um nauseante odor de cadáver. O motorista soltou um grito desesperado
e desmaiou. Foi socorrido pela esposa que logo suspeitou de um ataque cardíaco.
O problema dele era outro: medo na sua forma mais terrível. O coitado
não foi o mesmo depois desse episódio. Tornou-se meio acabrunhado,
desconfiado de tudo e sempre temeroso de sair de casa à noite.
Na Década de 60, os moradores
de Afogados atribuíam as constantes aparições de fantasmas
a uma suposta profanação cometida no local. Corria um boato
de que o mercado público do bairro, um dos mais movimentados do Recife,
tinha sido construído sobre um antigo cemitério (talvez aquele
onde foram enterrados os tripulantes mortos na expedição de
Martin Afonso de Souza). A hipótese nunca foi comprovada, mas também
não foi desmentida. O fato é que quem passava por perto do mercado
sentia um cheiro de coisa podre que nem o mais poderoso detergente conseguia
eliminar do prédio.
Ainda segundo alguns habitantes do lugar,
esse desrespeito aos mortos facilitava o aparecimento de espíritos
zombeteiros como o “Zé Pilintra”, entidade identificada
nas rodas de magia africana. Os rapazes que voltavam de festas à noite
costumavam se deparar com essa figura: chapéu na cabeça, roupa
branca, jeito de malandro. Quando se aproximava do grupo, soltava uma estridente
gargalhada. Não ficava um sujeito de coragem para contar o resto da
história.