___Foto: Fábio Rafael

Rio Capibaribe

Na chamada “Veneza Americana”, as assombrações também estão sob as águas. Principalmente sob as águas escuras do Capibaribe, o maior rio da capital pernambucana. Ele nasce como um riacho em Poção, no Agreste do estado, torna-se caudaloso ao longo do seu curso e vem seguindo o seu destino até o Oceano Atlântico, passado por vários bairros do subúrbio do Recife – entre eles, o Poço da Panela. No centro da cidade, o velho rio predomina na paisagem urbana: durante é como um límpido espelho que reflete a arquitetura dos prédios antigos. Á noite torna-se misterioso quando reproduz o brilho das luzes artificiais ou da lua cheia.Apesar de sua beleza, o Capibaribe sempre provocou temor entre os recifenses.

A tradição popular fala que, naquelas águas, habitam fantasmas pecaminosos. Almas penadas de suicidas que usaram o rio como rota de fuga deste mundo cruel. Permanecem, no entanto, no limbo. No escuro da noite, seus vultos de expressões angustiadas podem ser visto por quem se aproxima das margens mais desertas. Naquelas águas também pereceram banhistas desavisados que não resistiram à força das correntezas. Seus corpos eram encontrados quilômetros adiante, inchados e roídos pelos peixes. Seus espectros esbranquiçados ainda aparecem para pedir socorro aos viventes.

No Capibaribe atuou ainda um fantasma zombeteiro conhecido por Vira-roupas. Segundo o sociólogo Gilberto Freyre, ele atormentava as lavadeiras que ganhavam a vida às margens do rio. Era especialista em “roubar às trouxas das pobres mulheres camisas finas de doutores, toalhas de casas lordes, lenços caros de iaiazinhas.” Do Vira-roupas não se tem ouvido relatos recentes, já que ninguém mais usa o rio para lavar nada. Mas a assombração talvez ainda esteja por lá, a espera de uma vítima desprevenida.

Na década de 70, o Capibaribe transformou-se num verdadeiro monstro aos olhos dos moradores da cidade. Durante os períodos de chuva, o rio transbordava trazendo destruição e, muitas vezes, morte. Em 1975, ocorreu a maior de todas as inundações. Quando as águas baixaram e os recifenses começavam a voltar para suas casas, deu-se um dos episódio mais insólitos da história pernambucana. O boato de que a barragem de Tapacurá havia estourado levou a população a concluir que o Capibaribe viria com mais força e cobriria toda a cidade. Instaurou-se o pânico generalizado e as pessoas corriam em desespero pelas ruas: uma cena dantesca que parecia antecipar o fim-do-mundo ou imitar o cinema catástrofe americano que estava em voga na época.

O boato foi desmentido, as enchentes foram contidas nos anos seguintes e o Capibaribe permanece adormecido desde então. Mas não é exagero dizer que “O cão sem plumas” – como o rio foi chamado pelo poeta João Cabral de Melo Neto – merece respeito e reverência.