Rio Capibaribe
Na chamada “Veneza Americana”,
as assombrações também estão sob as águas.
Principalmente sob as águas escuras do Capibaribe, o maior rio da capital
pernambucana. Ele nasce como um riacho em Poção, no Agreste
do estado, torna-se caudaloso ao longo do seu curso e vem seguindo o seu destino
até o Oceano Atlântico, passado por vários bairros do
subúrbio do Recife – entre eles, o Poço da Panela. No
centro da cidade, o velho rio predomina na paisagem urbana: durante é
como um límpido espelho que reflete a arquitetura dos prédios
antigos. Á noite torna-se misterioso quando reproduz o brilho das luzes
artificiais ou da lua cheia.Apesar de sua beleza, o Capibaribe sempre provocou
temor entre os recifenses.
A tradição popular fala
que, naquelas águas, habitam fantasmas pecaminosos. Almas penadas de
suicidas que usaram o rio como rota de fuga deste mundo cruel. Permanecem,
no entanto, no limbo. No escuro da noite, seus vultos de expressões
angustiadas podem ser visto por quem se aproxima das margens mais desertas.
Naquelas águas também pereceram banhistas desavisados que não
resistiram à força das correntezas. Seus corpos eram encontrados
quilômetros adiante, inchados e roídos pelos peixes. Seus espectros
esbranquiçados ainda aparecem para pedir socorro aos viventes.
No Capibaribe atuou ainda um fantasma
zombeteiro conhecido por Vira-roupas. Segundo o sociólogo Gilberto
Freyre, ele atormentava as lavadeiras que ganhavam a vida às margens
do rio. Era especialista em “roubar às trouxas das pobres mulheres
camisas finas de doutores, toalhas de casas lordes, lenços caros de
iaiazinhas.” Do Vira-roupas não se tem ouvido relatos recentes,
já que ninguém mais usa o rio para lavar nada. Mas a assombração
talvez ainda esteja por lá, a espera de uma vítima desprevenida.
Na década de 70, o Capibaribe
transformou-se num verdadeiro monstro aos olhos dos moradores da cidade. Durante
os períodos de chuva, o rio transbordava trazendo destruição
e, muitas vezes, morte. Em 1975, ocorreu a maior de todas as inundações.
Quando as águas baixaram e os recifenses começavam a voltar
para suas casas, deu-se um dos episódio mais insólitos da história
pernambucana. O boato de que a barragem de Tapacurá havia estourado
levou a população a concluir que o Capibaribe viria com mais
força e cobriria toda a cidade. Instaurou-se o pânico generalizado
e as pessoas corriam em desespero pelas ruas: uma cena dantesca que parecia
antecipar o fim-do-mundo ou imitar o cinema catástrofe americano que
estava em voga na época.
O boato foi desmentido, as enchentes
foram contidas nos anos seguintes e o Capibaribe permanece adormecido desde
então. Mas não é exagero dizer que “O cão
sem plumas” – como o rio foi chamado pelo poeta João Cabral
de Melo Neto – merece respeito e reverência.