Avenida Malaquias
Num arborizado subúrbio do Recife,
perto do Parque da Jaqueira e da secular estação de bondes de
Ponte d’Uchôa, temos a Avenida Malaquias, uma das vias públicas
mais antigas do Bairro dos Aflitos. Hoje uma rua residencial com bastante
movimento. Mas houve um tempo em que era mais deserta, bastante perigosa e,
segundo testemunhas, mal-assombrada.
Naqueles tempos, antes da luz elétrica,
a iluminação pública era feita com lampiões a
gás e muitos acendedores de lampião correram ao ver vultos brancos
passando ou mesmo bichos correndo; talvez lobisomens, quem sabe mulas-de-padre,
que assolavam o Recife de outrora.
Conta-se que um acendedor, ao cumprir
sua rotina matinal de apagar os lampiões, escutou uma voz fanhosa junto
a seu ouvido pedindo: “não me deixe no escuro”. Nunca mais
o acendedor voltou a trabalhar lá. O episódio foi registrado
no livro "Assombrações do Recife Velho", de Gilberto
Freyre. A Avenida Malaquias da época era uma rua de poucas casas e
vários crimes. Muitos assassinatos ali tiveram lugar, tendo se tornado
célebre a morte do chefe da estação de Ponte d’Uchôa.
Talvez os meliantes fossem os únicos a não temer as coisas do
além.
Mesmo as poucas residências que
lá existiam não passavam incólumes às manifestações.
Portas abrindo, janelas batendo, vozes e até sons de charretes fantasmas
assombravam os moradores. Com o passar do anos, as luzes do século
XX foram afastando fantasmas e abusões. Duas avenidas movimentadas
limitam hoje a antiga via. O som mais ouvido no local agora é burburinho
provocado pelas mocinhas e rapagões que saem do Colégio das
Damas. Mas quem passa pelas frondosas árvores em horas mortas ainda
sente calafrios ao vislumbrar duas ou três velhas casas que teimam em
lembrar aos tempos modernos qual a verdadeira identidade da Avenida Malaquias.
Leia este trecho de uma reportagem publicada no Diário de Pernambuco
em 23 de junho de 2002:
O vigilante Armando Severino da Silva,
que trabalha no edifício de número 103 da avenida Malaquias,
jura que ouve assobios e gritos durante a madrugada e relata que teve contato
com uma das assombrações. "Ano passado, por volta das três
horas da manhã, um senhor chegou no prédio me pedindo um casaco.
Disse a ele que iria verificar se alguém tinha. Por um segundo, quando
me virei, o homem havia desaparecido". Armando confessa que já
está acostumado com os vultos e gemidos.
E você, se acostumaria a uma
vizinhaça como essa?