Poço da Panela
Encravado entre o bairro de Casa Forte
- um dos mais nobres da cidade - e o rio Capibaribe fica um dos pontos de
maior concentração de fantasmas e assombrações
do Recife. No arraial do Poço da Panela reina um clima nostálgico,
quase como se o tempo ainda fosse os das sinhazinhas, escravos e senhores
de engenho que mandavam em Pernambuco no século XIX. Lá predominam
os casarões, as ruas calçadas com pedras irregulares, as árvores
velhas e frondosas que peneiram a luz produzindo tenebrosas sombras mesmo
com sol a pino. Enfim, um cenário mais do que propício para
surgimento de fenômenos sobrenaturais.
O nome do arruado tem origem curiosa.
Segundo conta o historiador Sebastião Vasconcelos Galvão no
seu “Diccionário Histórico de Pernambuco” –
publicado em 1910 – no século XVIII os moradores do lugar tinham
dificuldade em conseguir água potável, que tinham que ser trazida
das localidades vizinhas: um grande transtorno para quem vivia no tempo das
carroças. Mas, para alívio de todos, uma nascente foi encontrada
perto do vilarejo. Os homens se apressaram em escavar para melhor aproveitar
água potável e uma panela de barro com fundo aberto foi posta
no local para garantir a sustentação das bordas.
A água, por sinal, tem outra
ligação com a história daquela comunidade. Ainda conforme
Vasconcelos Galvão, em 1746 surgiu no Recife uma misteriosa epidemia
de febre que, no entendimento dos médicos de então, deveria
ser combatida com banhos no Capibaribe. O Poço da Panela tornou-se
área preferida pelos pacientes vitimados pela doença. As águas
do rio naquelas margens ganharam fama de milagrosas.
As décadas se passaram, o rio
ficou poluído pelos esgotos, mas as águas do Capibaribe funcionaram
com um bálsamo protegendo o Poço da Panela contra o urbanismo
modernizante do século XX. O agrupamento de casas em torno da Igreja
de Nossa Senhora da Saúde permaneceu com jeito de cidadezinha do interior.
Muitos dos casarões do bairro mantiveram a sua imponência,como
lembranças sólidas de um tempo de fartura. Sobre muitos deles,
são contadas histórias bizarras. De luzes fantasmagóricas
vistas à noite pelas janelas, de barulhos estrondosos em quartos onde
ninguém está presente, de botijas escondidas nas paredes e apontadas
em sonho por almas penadas.
Os vizinhos de uma das propriedades
da área, por exemplo, costumavam ouvir murmúrios e gemidos assustadores.
O lugar, que não tinha morador, ganhou fama de assombrado. Dizia-se
que as manifestações eram provocada pelo fantasma de um zelador
surdo-mudo vítima de um crime misterioso. O fato é que ninguém
queria se aproximar do Sítio do Môco.
Nas janelas das casas são vistas
luzes misteriosas. Há quem diga que, na década de 80, a moradora
de um desses casarões quase se dá mal ao encontrar o esconderijo
de um suposto tesouro indicado por espírito atormentado.Vestido de
branco, ele teria se comunicada com a mulher durante o sono, dizendo que ela
poderia ficar com o dinheiro maldito que o prendia ao mundo dos vivos, mas
recomendado que nada fosse dito a qualquer outra pessoa sobre o assunto.
Desobediente, a boquirrota pediu o auxílio
do marido para desenterrar a dinheirama, que deveria estar a poucos metros
de profundidade perto de uma árvore grande do quintal. Quando o pobre
coitado começou a escavar, foi atacado por um animal invisível,
talvez um cachorro fantasma que seria o guardião do tesouro. Foram
muitos arranhões tratados com litros de mercúrio cromo. E ouro,
que é bom, nada. Triste de quem desrespeita as recomendações
dos não-viventes
Os moradores mais antigos do Poço
da Panela relatam muitas outras aparições fantásticas.
Num dos sobrados abandonados da vizinhança, por exemplo, à noite
é visto pela janela um misterioso homem de vestido de preto que parece
rezar diante de uma vela. Ninguém até hoje se atreveu a entrar
no casarão nesse momento para perguntar o motivo de tantas preces.
Estaria o fantasma pagando uma dura penitência por um pecado capital
cometido em vida? Quem teria coragem de perguntar? Todavia, Alguns dos malassombros
do Poço da Panela, no entanto, não são apenas visagens
difusas das quais é possível fugir com facilidade.
No século XIX, morava no local
o advogado e político José Mariano, fundador do jornal "A
Província", que se tornou um importante personagem da história
de Pernambuco por causa da sua luta pela pelo fim da escravidão. No
século XX, aboliciolista ele foi homenageado pela prefeitura com um
monumento perto da igreja do bairro. O busto do ilustre pernambucano foi posto
sobre uma coluna de pedra e, em frente dessa, foi posta uma estátua
completa de um negro de peito nu, tendo nos pulsos correntes quebradas: símbolo
da vitória diante da opressão.
Alguns moradores do Poço da Panela,
no entanto, testemunham que em certa noites, quando todas as casas estão
com a suas portas e janelas fechadas, a estátua de bronze ganha vida
e caminha pelas ruas com passos arrastados. Os que já presenciaram
esse passeio absurdo se arrependem de ter deixado a segurança de seus
lares nas horas dominadas pelo silêncio e pela escuridão. Afinal,
o Poço da Panela é território livre para o sobrenatural.