Melodia Fantasmagórica

O antigo edifício Holiday, no bairro de Boa Viagem, zona sul do Recife, abrigou de uma miscelânea dos mais variados tipos humanos, inclusive os artistas. No oitavo andar morava um músico, o sr. J. Ele sempre foi muito perfeccionista e gostava de praticar bastante. A princípio, os outros moradores não se incomodaram tanto, mas chegou um tempo no qual os ensaios foram além da conta – parecia que ele nunca parava de tocar! Muitos vizinhos diziam que constantemente ouviam o sr J. dedilhando o violão. Algumas vezes mais alto, outras mais baixo, mas sempre a mesma música.

O Sr. J não tinha vizinhos dos lados. Seu apartamento ficava no fim do corredor. Não recebia correspondências e, ultimamente, ninguém lembrava de tê-lo nas escadas e elevadores. Também não estava pagando o condomínio e deixara de comparecer às reuniões com os outros moradores e o síndico. Mas a música não parava – dia e noite a mesma melodia.

Os vizinhos, já irritados, resolveram se juntar para ir falar com o músico. Várias vezes bateram, tocaram a campainha e nada. Simplesmente o artista não atendia. Intrigados,arrombaram a porta. E o que viram os deixou aterrorizados: um corpo descarnado jazia sobre uma cadeira de balanço com trapos que lhe faziam as vezes de roupas. Ao lado, um velho violão!

Os peritos do IML consideraram que aquela pessoa estava morta há meses! O mais aterrador é que mesmo depois do corpo ter sido retirado e do ambiente ser limpo, alguns moradores ainda diziam escutar a música vinda daquele apartamento abandonado!

Em março de 2019 o edifício Holiday foi interditado e desocupado a mando da Justiça. Segundo técnicos da prefeitura, a falta de manutenção adequada do prédio de 17 andares construído em 1956 representava risco de vida para os três mil moradores dos 476 apartamentos. E, sem saber nada daquela história macabra, misteriosamente os funcionários municipais que ajudaram as famílias a fazer a mudança assobiavam a estranha e insistente melodia que os vizinhos do Sr. J costumavam ouvir…

Conto enviado pelos leitores Adriano Mendonça e Sofia Mendonça.