J.L. Munguba

Jonathan Lewis MacGoober veio ao mundo em agosto de 1889. O dia exato do nascimento permanece uma incógnita, embora há quem diga que 13 seria o número correto. Era o primeiro e único herdeiro de Ian MacGoober, escocês que se estabeleceu no Recife para ocupar um cargo importante numa das tantas companhias inglesas que atuavam na capital pernambucana. Encantado pelo modo brasileiro de viver, Ian se apaixou por uma moça rica conhecida como Dona Terezinha, filha de um dono de engenho Pernambucano. O tempo de convivência do casal, no entanto, foi curto.

Dona Terezinha engravidou logo nos primeiros meses de casamento e veio a falecer durante o parto que trouxe à luz o pequeno Jonathan. Daí em diante, o risonho e bonachão escocês se tornaria triste e carrancudo. Só tinha alegria nos poucos momentos de intimidade com o seu filho, um garoto que já demonstrava grande sagacidade e que adorava ouvir do pai contar histórias sobre fantasmas, castelos mal-assombrados, cavaleiros medievais e duendes da floresta.

Aos 16 anos, Jonathan vivenciou a experiência que iria traçar o rumo da sua existência. Estudava no Recife, mas passava as férias no engenho Riacho Escuro, que pertencia ao seu avó materno, o Coronel Tibúrcio Sacramento. Homem de muitas posses, embora rude e de pouca instrução, o coronel só chamava o neto de "Joca" por achar difícil pronunciar o nome de batismo do rapaz. Jonathan era cria da "Casa Grande" mas vivia entre os moleques do engenho, com os quais dividia brincadeiras e diversões. Nesta época, foi vítima de sua primeira paixão. Caiu enamorado por Jupira, uma moça de beleza trigueira, na flor dos seus anos 17 anos.

Jupira era filha do capataz do engenho, que fazia muito gosto no namoro dos adolescentes. Até que um dia ele chegou à Casa Grande com a terrível notícia: a moça havia se afogado enquanto banhava-se, à noite, no Riacho Escuro - curso dágua que dava nome à propriedade. O jovem Jonathan caiu em desespero ao ver o corpo da amada sendo velado pelas carpideiras. Por dias, quedou-se prostrado em seu quarto, sem falar, sem comer ou beber.

No sétimo dia depois da tragédia, Jonathan acordou-se por volta da meia-noite ouvindo a voz de Jupira. Num sussurro, ela dizia que fosse ao riacho. O rapaz saiu, de candeeiro em punho, na esperança de reencontrar namorada. Lá, sob a luminosidade tênue do luar, viu Jupira flutuar sobre as águas. Estava nua, como na hora em afogou-se durante seu banho noturno. Disse a ele que a esquecesse, pois agora ela pertencia ao Além - só precisava que fossem celebradas missas em intenção de sua alma. Depois disso, a aparição desfez-se no ar, deixando o moço aos prantos.

Primeiros estudos

Jonathan partiu na manhã seguinte para o Recife e, poucos dias depois, foi enviado pelo pai para estudar medicina numa das mais conceituadas universidades da Inglaterra. Em Londres, no contato com a cultura da Européia, o jovem se sentia dividido. Embora o modernismo estivesse cada vez mais presente, existia um clima gótico, escuro e fantasmagórico que o atraía cada vez mais. Começou a viajar para o Norte nas férias: Gales e Escócia - uma das vezes indo ao interior da Irlanda para conhecer os outros mitos e lendas.

Seu fascínio pelo sobrenatural chocava-se um pouco com seus estudos científicos, mas seu amor pelo oculto encontrou um meio termo: por que não começar a estudar fenômenos bizarros cientificamente? Afinal, muitas coisas vistas como absurdas ou demoníacas (a loucura, a sexualidade, as mutações) começavam a ser exploradas por nomes como Pinel, Freud e Darwin. Mas, tão logo terminou os estudos, foi surpreendido com a notícia da morte do pai, o que o obrigou a retornar ao Brasil.

Aqui encontrou o ambiente ideal para desenvolver a sua verdadeira vocação. Fora treinado na arte de salvar vidas, mas estava mais interessado no poderia haver do outro lado da existência. De volta ao seu país natal, percebeu que, no Novo Mundo, aconteciam tantas coisas inexplicáveis, tantos fenômenos sobrenaturais quanto no Velho Continente. Especialmente no Recife, uma cidade contaminada por vários séculos, cercadas de lendas provenientes de três culturas distintas e coroada com um casario antigo, recheado de memórias.

Em seus estudos, MacGoober passou a viajar pelo interior do Nordeste brasileiro, recolhendo relatos e histórias de malassombros e abusões, pesquisando a origem das lendas fantásticas em todos os grotões onde houvesse indícios de manifestações sobrenaturais. Aliado a isso, desenvolvia um trabalho humanístico como médico junto aos menos abastados. Consta que muitas das histórias do além anotadas por ele foram ouvidas de seus pacientes. E foi a dificuldade destas pessoas humildes em pronunciar o sobrenome britânico, que deu origem à alcunha que o doutor viria a adotar. Por onde passava, ficava conhecido como "O Dr. Munguba".

Assombrologia

Durante duas décadas J. L. Munguba recolheu o material necessário para desenvolver o fundamento da sua principal proposição: a Teoria do Vórtice Psíquico. Baseado nas suas descobertas, o doutor concluiu que a maioria das lendas, histórias de fantasmas e de seres fantásticos - considerados apenas frutos do imaginário popular - tinha “um fundo de verdade” quase sempre desprezado pela ciência dita racional. Segundo ele, haveria um portal de ligação entre o mundo material e um outro plano de existência onde estariam concentradas as energias sobrenaturais. O vórtice psíquico seria, portanto, o ponto de confluência entre esses dois universos.

A Teoria do Vórtice Psíquico tornou-se a pedra fundamental de um nova ciência que Munguba pretendia estabelecer: batizou-a de "Assombrologia". A disciplina reuniria os conhecimentos de áreas diversas, como a física e a sociologia, a fisiologia e a antopologia, para alcançar um novo patamar de entedimento - no caso, estudar com uma visão objetiva os fenômenos reconhecidamente sobrenaturais. Para isso, considerava Munguba, deveriam ser levados em conta também os conhecimentos que não foram adquiridos pela experimentação científica, mas sim relevados de forma intuitiva e reproduzidos pela cultura popular.

Em outras palavras, se a tradição oral de uma determinada comunidade disser que um lobisomem pode ser morto por balas de prata, assim o é; se outro grupo social acreditar firmemente que existe na mata uma entidade chamada "Cumadre Fulozinha" - e que esta costuma castigar os caçadores -, isso realmente acontece. A esse saber, que dispensa comprovação científica, Munguba deu o nome de "Determinantes do Inconsciente Coletivo" - desdobrando, portanto, um conceito já postulado por Carl Gustav Jung.

De posse de todo esse cabedal de informações, Munguba voltou a morar no solar de sua família no tradicional arrabalde do Poço da Panela, no Recife - coincidentemente um dos locais de maior incidência de fatos extraordinários, como o aparecimento de fantasmas e o descobrimento de botijas. Lá, o pesquisador produziu toda a sua vasta obra, estimada em cinqüenta volumes dedicados ao estudo do sobrenatural. Munguba afirmou nos seus escritos que o Recife possuía o maior conjunto de vórtices psíquicos da América Latina.

Lamentavelmente, os livros produzidos por J. L. Munguba nunca chegaram a ser publicados. Suas teorias foram rejeitadas pela maioria dos acadêmicos - tanto das ciências humanas, quantos das ciências exatas. A Assombrologia foi considerada uma "insanidade" por quase todos, mas uma "revolução genial" por uns poucos. Os apoios episódicos que recebeu não foram suficientes para dar o devido reconhecimento ao trabalho de Munguba. Isto, no entando não o impediu de continuar pesquisando e consolidando as suas idéias.

O Desaparecimento

Um capítulo obscuro nesta biografia é o suposto desaparcimento de J. L. Munguba. Teria ocorrido em meados da década de 1970 e permance cercado de incertezas. Na época, o pesquisador já era idoso, mas ainda perseverava em suas pesquisas. Contudo, ao sair numa noite para investigar o fenômeno que ficou conhecido como "Perna Cabeluda", sumiu sem deixar rastros. Após alguns dias, a polícia entrou no caso - e nenhuma pista foi encontrada sobre o paradeiro do Doutor. Ficaram os rumores. Há quem diga que suas experiências com o sobrenatural o levaram a um fim trágico e inominável. Há quem garanta que Munguba não teria morrido na ocasião e que, a partir dai, apenas teria vivido, sob outra identidade, junto com uma mulher que seria a reencarnação da sua amada Jupira. Porém nada ficou provado.

Enquanto esse mistério não é desvendado, aqui n´O Recife Assombrado, caro leitor,você encontra alguns dos estudos escritos por este fabuloso pesquisador e - por que não dizer? - pensador pernambucano. São textos copiados de manuscritos resgatados dos arquivos pessoais de Munguba, que estiveram por décadas esquecidos num baú abandonado no casarão do Poço da Panela. Foram encontrados por acaso, quando o imóvel passava por uma reforma para abrigar uma nova família. Agora, esses textos reveladores estarão publicados aqui, para abrir a consciência e tocar a alma daqueles que não tem medo de conhecer os segredos do sobrenatural...