Não Brinque com a Réstia

Contado do Marília Maciel*

Minha mãe foi criada por sua tia madrinha e pela avó paterna na cidade de Escada, mas durante algumas férias, quando ainda tinha por volta de quatro a cinco anos, costumava visitar seus pais em um sítio no Engenho Massauassu. A água era de poço, a iluminação de candeeiro, e a casa dos meus avós era bastante afastada de outras casas, em meio à cana de açúcar e algumas matinhas que existiam na região. Meu avô costumava usar a desculpa de que precisava comprar querosene em um barracão da usina, léguas longe dali, e todo santo dia ele saia cedo e voltava já tarde, com aqueles dois dedinhos de querosene para acender o candeeiro. Mas na verdade, ele voltava mesmo era bastante cheio de pinga.

Enquanto isso, minha mãe costumava ficar com minha avó durante todo o dia, a ajudá-la com os afazeres domésticos, como ir buscar água no poço, procurar por lenha perto do aceiro da mata, cuidar do jardim repleto de cravos e, às vezes, brincar com bichinhos feitos de batata e palito. À tardinha, minha avó costumava dar banho em minha mãe usando uma bacia e um canequinho, sempre à luz do candeeiro ou mesmo de uma vela. Minha mãe conta que durante esses banhos ela achava extremamente divertido observar sua réstia na parede da casa, e que corria de um lado para outro em uma banqueta de madeira só para ver sua sombra enorme projetada na parede. Minha avó, sempre advertia: “Não brinque com a réstia, menina! Você vai se assombrar à noite”. Lembrado que “réstia” e como antigamente também se chamava a sombra das pessoas.

Minha mãe não dava à mínima, e continuava brincando, por várias ocasiões em que tinha oportunidade. Até que uma noite, sem nem mais lembrar do que sua mãe costumava lhe dizer sobre essa possível assombração, minha mãe já estava deitada em sua rede, no quarto onde dormia, quando percebeu que na parede do quarto, bem a sua frente, havia uma velha. Isso mesmo, uma velha, que parecia de carne e osso, mas que ela não a conhecia. Aquela velha era muito magra, corcunda, de nariz muito pontudo e encurvado, vestida de preto, e a observava atentamente.

Minha mãe jura que não era réstia de alguma planta na janela, nem mesmo que ela estava dormindo. Ela fechava os olhos e ao abrir, a velha continuava lá, materializada, olhando-a fixamente. Minha mãe começou a chorar desesperada, chamando por sua mãe, enquanto aquela velha, que mais aparentava ser uma bruxa comedora de criancinhas, sumiu tal qual fumaça no ar. Naquela noite, minha avó correu ao quarto e ficou com minha mãe até ela adormecer. Depois disso, a velha tenebrosa não voltou a aparecer, e minha mãe parou com suas peraltices, deixando sua própria réstia em paz.

*Marília Maciel é uma verdadeira apaixonada pelos causos e contos populares do folclore pernambucano, sejam eles nos engenhos, subúrbios ou ruas da capital. Desde muito pequena, ao visitar parentes e conhecidos em engenhos e bairros mais afastados, adorava ouvir relatos de malassombro. É apaixonada pelas histórias de assombração contadas pelos autores pernambucanos Gilberto Freyre e Jayme Griz. Tentou reunir em seu blog – Enquanto o Papa-figo Não Vem – várias histórias, ouvidas durante sua infância e juventude.