O Capa Preta

Quando criança, eu tinha muito medo de escuro, e o quintal da casa em que eu morava, no bairro de Santo Amaro, na cidade do Recife, era muito grande e muito escuro à noite. Certa vez, numa noite de sexta-feira, quase meia-noite, senti sede e fui até a cozinha da minha casa beber água. Sempre que eu ia à cozinha, ficava olhando para aquela porta e para aquele ferrolho velho, que não fechava bem a porta. Eu tinha medo que a porta se abrisse e eu tivesse que dar de cara com aquele quintal em meio à escuridão.

Naquela sexta-feira, de 1975, o copo caiu ao chão e quebrou-se derramando toda a água, porque enquanto eu olhava para a porta, deu um vento forte que abriu a porta. Naquela hora, fiquei de cara com aquela escuridão de arrepiar. Fiquei gélido, ao ver naquela imensa escuridão um homem preto, todo vestido de preto com uma capa preta que ia dos ombros até as panturrilhas, usando botas de cano longo pretas, um chapéu preto tipo havana. De branco, ele só tinha os dentes e os olhos. Ele ficava sorrindo silenciosamente, mostrando seus dentes super brancos, causando medo, calafrios e espanto, capaz de aterrorizar qualquer um que o visse.

Segundo minha tia, era o príncipe negro, um protetor que se apresentava quando o perigo estava iminente. Ele aparecia para espantar o estranho que tentasse se aproximar da casa para roubar ou assaltar os moradores da residência. Depois daquela noite de terror, comecei a fechar a porta da cozinha no ferrolho e colocar o botijão de gás pra fazer peso, todas as vezes que eu precisar ir à cozinha tomar água, e ainda ficava com medo que a porta se abrisse sozinha como naquela noite.

Durante minha infância e adolescência, até os 16 anos, o vi por três vezes, na primeira vez foi no quintal da minha casa quando o vento abriu a porta que dava da cozinha para o quintal escuro, na segunda vez, eu estava chegando da noitada, tinha uns 15 anos, já era madrugada quando ao me aproximar do portão, o vi novamente, dessa vez eu estava acompanhado com os meus dois amigos, que moravam ali perto. Dessa vez, quem tomou o susto foram eles, eles queriam correr, achando que era ladrão. Então, eu disse a eles que não tivessem medo, pois era o Capa Preta protetor da casa e dos moradores daquela casa que tinha aquele tipo de planta, essa planta que não lembro bem seu nome, também estava no beco da minha casa.

A última vez que o vi, foi em Cajueiro, outro bairro do Recife, na casa da minha tinha. Eu tinha 16 anos, e estava trocando de roupas, tinha acabado de sair do banho, quando o vi pela janela basculante de vidro, chamei minha tia imediatamente; ela veio em minha direção e perguntou o que aconteceu e eu respondi:

– Vi o Capa Preta!

– O príncipe negro veio ver você, ela disse. Aqui em casa também tenho aquela planta, por isso se alguém chegar na casa que tiver essa planta ele vem ver quem é. Ele já conhece você, por isso não tenha medo dele, sorria pra ele também.

Apesar da familiaridade, me parecia estranha a presença daquele fantasma rondando a casa, não sei se esse fantasma  já apareceu pra você, caro leitor, mas se de repente na escuridão da noite você vir aqueles dentes brancos rindo pra você, e você começar a ficar gélido, com calafrios, arrepiado e sentir vontade de correr de tanto medo. Saiba que é o capa preta que veio, nessa noite escura, visitar você!

Contado por Lula de Castro

  • Ângela Sousa

    Eu nunca vi o príncipe negro (Graças a Deus!). Mas já vi “o príncipe das trevas” e a experiência não foi nada interessante.