O Catador de Lixo do Cemitério (Calitério)

Um rapaz pobre e bom, de família muito humilde. Só existia um tio como parente, que ganhou na loteria, ficou rico e avarento e tinha apego demasiado ao dinheiro e as coisas materiais. o que era um obstáculo ao desenvolvimento do espírito imortal. O tio fazia o sobrinho de escravo que, para comer e dormir trabalhava de sol a sol na manutenção de toda mansão, e no final do dia se contentava com o empréstimo de um quartinho no fundo do quintal da casa, onde descansava e tinha sonhos. Sonhava com uma vida melhor sem humilhação e constituindo uma família.

O tio forte e poderoso que achava tudo possível e dizia que jamais morreria, caiu em desgraça e ficou muito doente. No seu leito de morte mandou chamar um velho conhecido de todos da cidade, um grande comprador de imóveis. Fez uma proposta de venda da propriedade para não deixar para ninguém – se referia ao seu sobrinho -, e pediu ao comprador que quando morresse queria ser enterrado no melhor cemitério, com o melhor caixão e bastante coroas de flores, e que seu dinheiro com os seus objetos, relógios, canetas e colares de ouro fossem sepultados juntos com ele. O pedido do milionário foi atendido e o garoto foi jogado na rua “sem eira nem beira”, sem ter o que comer e onde morar.

Foi parar no cemitério onde o seu tio estava enterrado, olhando toda aquela riqueza em cima e em baixo da terra desperdiçada com alguém que não precisava mais daquilo para viver, e sim de orações das pessoas. Debruçado sobre a imponência da placa do jazido pensou em retirar todo àquele ‘lixo’ debaixo de sete palmos de terra, vender e dar o dinheiro para os pobres. Pegou uma pá e uma enxada e começou a exumação do lixo, catou tudo que podia e colocou em um grande saco, até ficar exausto e como de costume no fim do dia, foi descansar, neste caso, dentro do caixão. Enquanto dormia, um coveiro passava e viu a tampa da cova fora do lugar, e resolveu fechá-la sem ver o Calitério – O Catador de lixo do cemitério dentro, que foi enterrado vivo.

Reza a lenda que o Calitério sai toda noite vagando pelos cemitérios em busca das covas nas quais os mortos não conseguiram se desprender dos seus bens materiais e levaram para a eternidade no aterro sanitário do além. ..

Ilustração e texto do pintor Catamisto André Soares Monteiro: artista Brasileiro, nascido no Recife no ano de 1967 que une em seu trabalho sustentabilidade e arte de forma lúdica, colorida e de grande relevância social. André é autodidata e o idealizador do Catamisto – Catar e Misturar o lixo e transformar em arte humanitária.