O Chiado das Cigarras

Partimos do Recife para sítio do avô do meu amigo Breno numa sexta-feira pela manhã. Seu Jaime nos convidou para passar o fim de semana naquela cidade do interior de Pernambuco onde, no sábado, teria um grande show com bandas de forró na praça central. Mas o sítio ficava longe do centro: ao descermos na rodoviária, ainda foi preciso pegar uma “Toyota” –  espécie de táxi coletivo bem comum na região do Agreste – que nos levou à propriedade depois percorrer alguns quilômetros de estradinha empoeirada.

O motorista foi embora com os demais passageiros e nós ficamos meio sem saber o que fazer em frente à cancela de madeira gasta. Breno bateu palmas, ninguém atendeu. Ele insistiu e nada. Resolvemos entrar puxando devagar a trava que prendia a cancela.  Caminhamos até a casa mais à frente enquanto olhávamos para todos os lados.

Um terreiro com algumas árvores de troncos grossos, umas roupas e alguns panos pendurados no varal sustentado por paus meio torcidos, de lado um curral com duas vacas a ruminar e, no fundo, a casa baixa de porta e janelas fechadas, pintura azul manchada pela umidade, alpendre com rede de banco de madeira.

Batemos em frente à porta. De dentro só veio o silêncio.

– Relaxa, cara! Tio Jaime de ter ido à feira com Tia Carmem, coisa assim. Voltam já, garanto. Deita aí na rede, descansa, que vou andar até o próximo sítio pra ver se o vizinho sabe do pessoal.

Fiz como Breno disse, tava mesmo quebrado pela viagem. Me enterrei na rede vendo ele se distanciar de volta à cancela. Fiquei escutando a tranquilidade que cercava aquele lugar. Só o piado de um ou outro passarinho que vinha do morro lá longe. Mais perto, o chocalho de uma das vacas. Foram alguns minutos até uma ventania fazer roçar as folhas nas árvores. Senti o sopro meio gelado atravessar o pano esgarçado da rede.

Levantei a cabeça pra ver o sol esfriar, cercado de nuvens alaranjadas. Com a luz mais fraca, veio o assovio das cigarras – pareciam competir, quem cantava mais alto e mais agudo? Uma, duas, três e logo eram mais de dez. Botei dedos nos ouvidos, torci pra que parassem. Como um inseto pode fazer um ruído desses? Quando fechava os olhos, aquilo soava como gritos desesperados. Por que Breno demorava tanto?

Quis me levantar e ir procurar por ele. Mas ao tentar me sentar na rede, percebi um vulto por trás de um dos panos do varal próximo ao alpendre. Alguém me espreitasse usando a cobertura do lençol alvo e esticado que quase tocava o capim. A silhueta de um homem, com certeza. Um homem magro com chapéu.

– Seu Jaime? Tudo bem? Breno saiu pra achar o senhor e sua esposa…

Não ouvi resposta. Só o assovio das cigarras – agora dezenas? – chiando sem parar, mais fino, mais alto. E seu Jaime, baixinho e gordo, cabeça redonda, sempre risonho e contando piada, não ia fazer uma brincadeira sem graças daquelas. Melhor correr?

– Seu Jaime não está, volte outra hora!

Nem se mexeu. Pulei da rede, sai do alpendre para o terreiro. Cinco ou seis passadas. Via a réstia no lençol com mais detalhes: orelhas compridas por baixo da aba do chapéu pequeno, mão esquerda erguida, as pontas dos dedos tocando o tecido branco.

– Ei, camarada, deixe fazer graça. O que você quer? Fale!

A sombra calada e as cigarras cantando sem trégua, desesperadas, vozes em pânico enchendo meus ouvidos. Mais três ou quatro passos para chegar ao varal e parei. Veio uma covardia nas pernas, uma tremedeira nos ombros, na boca uma secura.

– Parou, meu irmão! Ou mostra a cara ou vá embora. Some daqui!

E no lençol estendido surgiu um ponto vermelho escuro que foi crescendo ligeiro, cobrindo a sombra. Uma mancha encarnada escorrendo de cima a baixo, ensopando o pano que balançou, quase vivo, empurrado pelo mesmo vento que castigava as folhas. Com esse movimento descobri que nada havia por trás do lençol manchado. Não estava lá o homem de chapéu e orelhas compridas. As cigarras sopravam tontura para dentro da minha cabeça oca. Vi rodar o céu de nuvens alaranjadas e fechei os olhos com força antes bater a cabeça na terra.

***

Um talo de capim cutucou meu nariz quando com Breno me balançou.

– Que isso, meu velho! Levanta aí! Tá passando mal?

Tinha anoitecido. Em pé ao meu lado, Seu Jaime e dona Carmem eram só espanto.

– Cara, tinha alguém aqui… Não vi quem era. E o lençol ali ficou ensanguentado…

Apontei para varal onde estava o pano. Branco e limpo com estava antes. Me levantei sem dizer mais nada.

Na casa me deram água e depois café. Sentado à mesa de jantar, permaneci mudo. Até pus o cuscuz no prato, mas não consegui comer. Seu Jaime especulava com Breno sobre o que podia ter acontecido. Foi um passamento, dizia: vai ver não se alimentou direito quando saiu de casa, o peso dessa mochila na viagem, essas coisas, normal.

Mais tarde, Dona Carmem veio sentar ao meu lado no banco de madeira do alpendre. Me encarou de testa franzida antes de cochichar que eu não ficasse com vergonha, pois aquele sítio era velho, nele tinham ocorrido mortes por tiros, briga de família e vinganças. O tio dela, por exemplo, fora assassinado na cama onde cochilava num finalzinho de tarde, depois de vir da cidade onde dera uns murros na cara de um rival. Apenas abanei a cabeça e disse que não se preocupasse comigo.

A noite foi de suor na testa e pesadelos, pulando da cama a cada barulhinho que vinha de fora do quarto. Exausto, só dormi mesmo com o sol alto, para acordar à tardinha, e todo dolorido, de ressaca. Lavava o rosto na pia estreita do banheiro quando percebi que as cigarras começavam de novo a cantar.

Pus a mochila nas costas, me despedi de Seu Jair e Dona Carmem, disse a Breno que não estava mais a fim de ver banda de forró, voltaria para o Recife naquela hora.

– Tu vai ter andar até a rodoviária, velho! Essa agora não passa Toyota. Que agonia é essa?

– Vou a pé mesmo, tranquilo!

Acho que Breno ficou chateado comigo. Ao passar da cancela, corri pela estrada deserta. Só queria ficar longe e não ouvir mais o chiado das cigarras.

Contado por Antônio Luiz Nunes

Conhece uma história assustadora como essa? Então conte pra gente: 

orecifeassombrado@gmail.com