O Colecionador de Sacis

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Jornalista sul-mato-grossense garante: o mais famoso duende brasileiro “está naquele vento frio que percorre a espinhela, no repuxar das tripas, no cabelo que arrepia”.

Andriolli de Brites da Costa, 26 anos, nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.  Graduou-se em jornalismo na UFMS, em Campo Grande, e depois fez mestrado na UFSC, em Florianópolis, Santa Catarina.  Atualmente o jornalista faz doutorado na UFRGS em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.  Mas seu trabalho mais conhecido está relacionado a uma longa e sincera amizade com o mais conhecido personagem do folclore brasileiro: o duende perneta de gorro vermelho. Ele mantem o blog “O Colecionador de Sacis” (www.colecionadordesacis.com.br) e também faz palestras nas quais revela: o negrinho acapetado é uma entidade muito mais assustadora do que se costuma imaginar.  Nesta conversa com O Recife Assombrado, Andriolli conta muito do que aprendeu sobre o Saci.

O Recife Assombrado – Quando começou o seu fascínio pelo mito do Saci?

Andriolli  Costa – Não sei exatamente quanto a idade, mas meu fascínio veio ainda durante a infância. Meus avós vivem na zona rural de Mato Grosso do Sul, e em todas as oportunidades que tinha, passava minhas férias por lá. E algo que sempre captou minha atenção era que meu pai, um professor universitário muito sério, no caminho para a chácara dos avós se pegava comentando: “O Saci assoviou para mim nessa porteira”, ou “ali ele me perseguiu”. Ele não falava em tom de brincadeira, mas com o respeito de algo que fez parte de sua vivência e experiência. Desde cedo me interessei pelo Saci e aprendi que o temor ou o respeito a seres fantásticos nada tinha a ver com nível de instrução.

Mais tarde, perguntando sobre o assunto, descobri que o Saci faz parte da história da minha família há gerações! Minha tataravó, dona Floriza, se vestia de Saci para assustar os filhos. Ela dizia que ia visitar uns parentes, deixando a comadre cuidando das crianças. Dava uma bela volta pela serra e voltava com a cara preta de carvão, roupas masculinas de manga longa e um saco cheio de tocos nas costas. Dizia que ali estavam os filhotes de Saci, doidos para devorar crianças mal educadas que tem preguiça de varrer o terreiro, que xingam os pais, etc. As crianças morriam de medo e, por uns 10 dias, ficavam que eram uns anjos!

Minha avó aprendeu com a avó dela, e também imitava o Saci. Só que sem a performance, só o assovio. É que para a avó, Saci é invisível. Você não o vê, mas sente. O Saci está naquele vento frio que percorre a espinhela, no repuxar das tripas, no cabelo que arrepia. Então ela assoviava fazendo o típico som do diabinho, e meus tios morriam de medo. Tanto que uma vez ela fez isso e um dos meus tios correu tão desesperado que prendeu o pescoço na corda do balanço e quase sufocou. Desde então a vó nunca mais imitou Saci, e o Saci nunca mais apareceu.

– Ora, vô! – perguntei a ele – Não está uma coisa relacionada à outra? A questão, depois entendi, é que não era um simples arremedo, mas um chamamento. Quando você assovia imitando saci, você na verdade atrai o saci. E aí ele cumpre toda sua função: acabar com o marasmo da rotina da vida do caboclo.

Atualmente como o saci está envolvido em sua vida?

Desde janeiro de 2015 eu coordeno o blog O Colecionador de Sacis, um espaço dedicado a falar sobre cultura popular com enfoque jornalístico, trazendo entrevistas, resenhas e artigos de opinião que nos ajudam não apenas a conhecer a produção contemporânea de obras de inspiração folclórica, mas também a pensar o lugar da tradição nos dias de hoje, a importância da simbolização, o valor do saber ancestral.

Paralelamente, dirigi, roteirizei e editei no ano passado o curta-metragem também chamado “O Colecionador de Sacis” – um filme de drama sobre um homem de meia idade que vive sozinho em uma casa repleta de garrafas vazias. Em cada uma delas, ele jura, existe um saci diferente. Desde dezembro comecei a organizar um evento chamado “Mostra Curta Saci”, onde exibo vários filmes diferentes, todos sobre sacis, que são seguidos de uma palestra onde conto histórias sobre sacis, discuto sua origem, seus significados e a importância do folclore em tempos de modernidade.

No momento estou escrevendo um livro infantil, chamado “Esquadrão Saci”. A ideia era terminar em abril, mas graças ao doutorado tempo acabou se tornando uma moeda escassa, mas o resultado está me deixando muito satisfeito. A arte é do também escritor Vilson Gonçalves, de “A Canção de Quatrocantos”.

Afinal, quem é mesmo o Saci?

É sempre difícil definir Saci, assim como qualquer criatura do folclore brasileiro, pelo simples fato de que a diversidade de versões não cabe em verbetes de dicionário. É sempre um erro nos apegarmos a uma versão única de Saci tendo ela como definitiva. O que podemos fazer é pensar nas suas linhas gerais: o Saci é um duende brasileiro, perneta, com pele escura ou negra, ostentando um gorrrinho vermelho que lhe dá poderes e um pito sempre aceso que leva à boca.

Dito isso, podemos pensar que existem sacis de todos os tipos! De duas pernas; só com uma perna direita, esquerda ou ao centro; indígena; adulto, velho ou criança; de pequeno ou médio porte, enfim… É comum a versão de que o saci nasce do gomo do taquaruçu, nas noites de tempestade, quando o bambuzal estala. Mas já me contaram histórias de que o Saci nasce do incêndio nos bambuzais e que por isso sua pele não seria negra, mas coberta de fuligem e cinzas.

Isso mostra que não podemos nos prender puramente na aparência para identificar a criatura, mas sim pensar a sua essência. E a essência do Saci é ser um brincalhão, um pregador de peças, um trickster – como se diz nos estudos de mitologia. O grau das brincadeiras varia nas versões, podendo ir da quase maldade à simples pilhéria, mas o Saci sempre vai se divertir com elas.

Por que ele é um personagem tão forte no imaginário popular brasileiro?

É claro que a exposição midiática – desde Monteiro Lobato – o tornou mais famoso personagem do imaginário brasileiro, mas devemos pensar numa camada anterior a essa, que é “por que as pessoas gostam e se identificam tanto com o Saci”. A resposta pode ser que é porque o saci concentra a trindade formadora da cultura popular brasileira: indígena, negro e europeu.

Explico: os primeiros relatos de um Yasy Yateré dizem de um anão Guarani, com duas pernas. Mais tarde, quando as escravas negras assumem o monopólio da contação de histórias, o saci passa a ser descrito como negro e perde uma das pernas. Os motivos são vários, mas gosto especialmente da versão que diz que ele era um escravo que cortou uma das pernas para fugir das correntes e fugiu pulando para a mata. É o Saci como símbolo de resistência, e a perna que lhe falta como uma manifestação de liberdade condicionada, dos sacrifícios que devemos fazer para não nos deixarmos aprisionar.

Por fim, a herança europeia está manifesta especialmente em seu gorro vermelho, objeto de encantamento que guarda a magia do Saci. Tal qual um duende europeu, dizem que o barrete carmesim é símbolo de poder desde os tempos romanos. Existem versões que descrevem pessoas que conseguem palácios e riquezas roubando a carapuça do Saci, mas tão logo ele a recupere faz tudo virar areia e a pessoa volta à pobreza de corpo e espírito que sempre lhe pertenceu.

Andriolli Costa em palestra sobre o Saci

Andriolli Costa em palestra sobre o Saci

Qual a história mais assustadora sobre o Saci que você já ouviu?

A mais assustadora certamente foi uma que escutei após uma apresentação em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul. Uma moça de uns 45 anos se aproximou após o evento e pediu desculpas por ter saído mais cedo. Disse que assim que ouviu o assovio do saci em um dos filmes da Mostra de curtas-metragem que eu apresento, sentiu um forte enjoo e só conseguiu voltar no final. Não entendi o motivo do enjoo e insisti na dúvida. Ela contou o seguinte:

“Quando eu era criança, sempre que meu pai voltava do trabalho, ele assoviava para avisar que havia chegado. Se eu estivesse acordada, assoviava de volta. Mas um dia , acordei de madrugada ouvindo um assovio e o respondi. Só que não era meu pai que estava assoviando”.

Desse dia em diante ela ouvia um assovio incessante, 24 horas por dia, que parecia soar dentro de sua cabeça. Foram quase 30 dias desse barulho terrível, que só ela escutava. Ao ponto de ela quase não conseguir mais dormir. Foi só quando chamaram uma benzedeira para a casa que se descobriu: a menina havia irritado um Saci. Depois de um trabalho bem feito para acalmar o duende, a menina nunca mais sofreu com isso.

Você é jornalista e fez um trabalho acadêmico sobre a relação entre a mídia e as lendas. A mídia destrói, preserva ou recria o imaginário?

Essa é uma ótima pergunta sobre a qual me debrucei durante vários anos. O que percebi foi o seguinte: normalmente mitos e lendas são temas de difícil apreensão pelo jornalismo tradicional. Lugar de objetividade e precisão, o comum é que as matérias ou tentem explicar os fenômenos cientificamente ou apenas debochar das crendices populares, esvaziando seus significados. O lendário encontra seu espaço positivo nas páginas do jornal normalmente quando é alçado à categoria de arte: é um quadrinho sobre o Curupira, um filme sobre o Saci, uma peça sobre a Iara. Aí a abordagem é totalmente outra, fala-se de identidade, valorização, etc.

Um caso muito peculiar que eu estudei foi no Paraguai. Lá há uma lenda muito famosa que diz que existem toneladas de tesouros escondidos no subsolo do país, apenas esperando um escolhido de coração puro para se revelar. Chama-se Plata Yvyguy. Acontece que a lenda é tão famosa que faz com que pessoas – de padres a ministros, de desempregados a funcionários públicos – tenham como grande hobby a caça ao tesouro. Ao ponto de muitos morrerem todos os meses em buracos mal escavados, ou serem presos invadindo propriedade privada por que encontraram um mapa informando aquelas coordenadas. Nesse caso o jornalismo não consegue se furtar de falar da lenda, o que certamente colabora em um processo dialético para que ela continue a inspirar ainda mais pessoas a buscar o ouro encantado.

Você faz palestras sobre o Saci. Como elas são agendadas? E como tem sido a receptividade do público?

O primeiro convite para falar sobre sacis veio após uma participação que fiz no podcast “Papo Lendário”, falando sobre minha página, o Colecionador de Sacis. Fui convidado para palestrar em uma universidade sobre Sacis e criatividade, num evento que ainda não ocorreu, mas que está na agendo para o mês de outubro. Depois disso, comecei com a “Mostra Curta Saci” em Mato Grosso do Sul, com quatro apresentações em cidades diferentes. Em cada uma trabalhamos com um público específico: crianças, universitários e adultos em geral. Foi sensacional! Professoras estavam empolgadas em contar novas histórias de sacis para seus alunos, pais relembravam suas infâncias e estavam ansiosos para proporcionar o mesmo encantamento para seus filhos, jovens se perguntavam sobre racismo e inclusão… As discussões que o saci levanta atingem todos os públicos e todas as idades.

Quando voltei para o Rio Grande do Sul, onde moro hoje, optei por dividir a Mostra em dois eventos distintos: um para o público infantil e outro para o geral, cada um com seu próprio conjunto de filmes e histórias. A receptividade está muito boa e tem várias pessoas querendo levar nossos sacis para suas cidades. Para saber mais basta entrar em contato pelo e-mail andriolli_costa@hotmail.com, que mandamos o projeto completo, ou acessar www.colecionadordesacis.com.br .

  • Marília Maciel

    Que maravilha saber que há gente dedicada à causal! E viva o saci! Viva o folclore brasileiro! Sem medo de relatar as histórias!