O Fanzine que deu origem ao Recife Assombrado

Em 2020, o site O Recife Assombrado faz 20 anos no ar: duas décadas levando pesadelos às noites dos leitores, mostrando o lado mais assustador das antigas lendas. Mas essa história começou bem antes. A ideia surgiu na década de 1990, em meio a conversas de três fanáticos por histórias de fantasmas: Sérgio Barza, maestro e professor do Conservatório Pernambucano de Música, André Balaio, na época vocalista da banda “Paulo Francis VPC”, e o jornalista Roberto Beltrão.

A inspiração foi o livro “Assombrações do Recife Velho” (1955), uma das obras mais instigantes do sociólogo Gilberto Freyre. Barza tinha um exemplar autografado pelo próprio autor e o apresentou aos dois amigos. Os três passaram a promover “saraus” nos quais juntavam uma turma de colegas para ler em voz alta as histórias de Freyre e lembrar outras lendas da capital pernambucana, como a Perna Cabeluda e a Mulher do Algodão. Em seguida, veio o projeto de levar essas narrativas a muitas mais pessoas num tempo em que a cultura oral já vinha perdendo força e os mitos ancestrais começavam a ser esquecidos.

Então produziram uma revistinha em xerox com artigos e contos medonhos. Um fanzine: mídia alternativa em moda nos anos 90 entre os fãs de rock e produtores independentes de histórias em quadrinhos. Este foi o primeiro número d´O Recife Assombrado, publicado em julho de 1993:

Essa edição inicial foi distribuída de graça. Os produtores chegaram a levar exemplares ao Festival de Inverno de Garanhuns daquele ano. As revistinhas foram repassadas ao público que assistia aos shows de Mundo Livre S/A e Jorge Benjor, numa noite memorável. Apesar da boa recepção por parte dos leitores, os três editores não ficaram completamente satisfeitos com o resultado: queriam uma forma ainda mais abrangente de recontar os causos de assombração e não deixar que eles fossem esquecidos.

Começaram então um logo período de pesquisas: conversaram com antigos moradores do Recife para colher relatos. Também vasculharam antigos jornais do acervo do Arquivo Público de Pernambuco em busca de reportagens sobre ocorrências sobrenaturais e consultaram vários livros sobre o imaginário popular – publicações de autores importantes, mas pouco lembrados como o paraibano Ademar Vital (“Lendas e Superstições”, 1950) e o pernambucano Jayme Griz (“O Lobisomem da Porteira Velha” , 1956 e “O Cara de Fogo”, 1969).

Estudaram a fundo também a linguagem do horror na literatura, nos quadrinhos e no cinema para conhecer as técnicas mais eficazes de levar pavor ao público que sente atração pelo tema das assombrações.

Em 2000, Roberto Beltrão e André Balaio conheceram o cineasta José Mojica Marins, o mestre Zé do Caixão

Até que, em julho de 2000, O Recife Assombrado ressurgiu na rede mundial de computadores. Na sequência vieram os livros, as palestras, os quadrinhos, as peças de teatro, os eventos e o filme longa metragem. E logo vamos relembrar outros detalhes dessa trajetória cheia mistérios e descobertas.

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