O Horror da Carapaça Escura

Imagine o que é descer dezenas de metros em águas turvas, tendo a vida sustentada apenas por um precário equipamento de mergulho, e encontrar o seu pior pesadelo no fundo lamacento do oceano. Pois esse é o horror que espreita os leitores no principal conto do livro “Carapaça Escura”,  do pernambucano Frederico Toscano – uma publicação da editora Patuá, de São Paulo.

Toscano ganhou já o terceiro lugar do Prêmio Jabuti com seu livro de estreia na categoria Gastronomia, e “Carapaça Escura” é seu primeiro trabalho de ficção. São dez contos de terror ambientados em cenários pernambucanos – do litoral ao sertão, em favelas ou casas abastadas, em uma cidade interiorana ou na metrópole recifense, o
fantástico nas histórias assombra justamente pelo desenrolar do insólito em ambientes e contextos reais.

No livro, o horror também é veículo para críticas à sociedade atual, em especial ao patriarcado e às desigualdades nas relações sociais e de gênero. No conto que abre a edição, “Isca viva”, um velho militar aposentado remedia o tédio em pescarias na praia de Boa Viagem até encontrar um ser estranho entre os arrecifes, que o fará lembrar, involuntariamente, da empregada doméstica que assediava violentamente. Em “Cabidela”, uma cozinheira de periferia traída pelo companheiro tem sua raiva inexplicavelmente materializada no corpo das galinhas decapitadas, que passam horas se debatendo mesmo sem a cabeça, até que a moça se acalme – e, eventualmente, consiga sua vingança sangrenta.

Toscano trabalha com diferentes temporalidades: no conto que dá título ao livro, o Recife do começo dos anos 1960 aparece vividamente como cenário em que escafandristas empregados pelo Porto se arriscam sob o lodaçal para deixar o canal livre aos navios. Aqui também um comentário social – as péssimas condições de trabalho dos mergulhadores fazem com que cada submersão possa ser a última. Mesmo assim, é na solidão da água, cercado de criaturas estranhas e fantasmagóricas, que o personagem Tadeu realmente se sente à vontade.

Já em “Azeviche”, um gato preto de rua é retratado como uma criatura que vive permanentemente entre dois mundos, e escolhe proteger uma criança de espíritos mal-intencionados. Mas os pais da menina não entendem as atitudes “estranhas” do felino, que arrisca sua vida nessa missão. O trabalho acadêmico do autor aparece incidentalmente em seus contos: a Gastronomia em “Cabidela”, e a pesquisa histórica em “Carapaça escura”.

Para o doutorado, Toscano pesquisou a influência americana nos hábitos alimentares do Recife entre 1930 e 1964, compreendendo aSegunda Guerra mundial, período em que militares dos Estados Unidos ficaram baseados na cidade. “Um bom conto é aquele que, entre outras coisas, nos mantêm presos até a última linha, e Fred
consegue tal feito aqui”, avalia o professor André de Sena, do departamento de Letras da UFPE. “O talento criativo dessa ficção consegue extrair o insólito tanto de contextos regionais, sem cair no lugar comum ou exotismos, como em contos de sabor ora poético, ora alegórico”, completa.

Carapaça Escura custa R$ 40,00 e pode ser adquirido pelo site da Editora Patuá.

Sobre o autor: Frederico Toscano nasceu e mora no Recife. É bacharel em Gastronomia pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), mestre em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e a acaba de concluir o doutorado, também em História, pela Universidade de São Paulo (USP). Escreve textos de humor e ficção especulativa e já contribuiu para as revistas Mensch, Somnium, Trasgo e outras de abrangência nacional, além d´O Recife Assombrado.

Em 2015, recebeu o Prêmio Jabuti, em terceiro lugar na categoria Gastronomia, pelo seu livro À Francesa: a Belle Époque do Comer e do Beber no Recife, lançado no ano anterior pela CEPE. Pela mesma editora, publicou também O terceiro homem – a fotografia e o Recife de Ivan Granville, resultado de sua pesquisa sobre o trabalho do fotógrafo amador que registrou a capital pernambucana entre as décadas de 1930 e 1960.