O Matador e o Lobisomem

Há muito tempo, meu avô materno me contou uma história de quando ele morava na área rural da cidade de Carpina, na Zona da Mata de Pernambuco. Certa vez ele falou sobre um causo que lembro até hoje, com certo fascínio e nostalgia de infância. Uma história que ele gostava de contar, com um sorriso matreiro no rosto, e que me fez gelar a espinha quando ouvi pela primeira vez.

 Durante o final dos anos 1960, meu avô trabalhava em uma usina de cana-de-açúcar existente até hoje nos arredores do município de Carpina, na Zona da Mata de Pernambuco. Sua função era fazer o que lhe pedissem, entre pilotar o trem que buscava lenha para alimentar os processos da usina e trabalhar na destilaria.

 Ele me contou que certo um ano um tal de José chegou para trabalhar na usina. Era um sujeito barbudo magro, pálido e tinha uma característica peculiar, que nas palavras de vô: “Tinha os olhos meio amarelados e uma catinga igual à de cachorro do mato na chuva”. Os poucos amigos que o novato fez não sabiam muito dele.

O falatório correu solto na usina sobre quem era o tal recém-chegado. Ninguém nunca o tinha visto pela cidade e o seu comportamento de pouco falar chamava a atenção. “Tinha um pouco de sotaque de gente que vem do Rio de Janeiro ou São Paulo. O homem parecia desnutrido, parecia, que Deus me perdoe, um defunto que tava vagando”, dizia meu avó.

 Os meses foram passando e, aos poucos, todo mundo foi se acostumando com o tal José. Mas um fato nunca mudou: ninguém o via à noite em lugar nenhum. Certa vez ele havia dito aos colegas, durante o horário de almoço, que tinha que ir para casa, para rezar, que tinha que fazer isso religiosamente às seis horas por que era devoto de Nossa Senhora, e o mistério ficou por isso mesmo. Às vezes a demanda na usina exigia a presença dos trabalhadores até as onze da noite,  mas o tal José não aparecia quando escurecia.  

“A usina podia pegar fogo que eu duvido que ele aparecesse para ajudar:  o sujeito tava sempre apressado quando a noite estava chegando. Isso encabulou até o fiscal, que tentou segurá-lo na usina certa vez, mas não teve jeito. O tal José começou a se tremer e liberaram ele, que escapuliu ligeiro pra casa”.

 Isso não foi um problema, pois o homem tinha certo grau de confiança com fiscal e, apesar de parecer magrinho, tinha um vigor surpreendente pro trabalho.  ” O cabra era trabalhador, isso o danado ele era”.

 As coisas seguiram normalmente até a chegada de outro sujeito. Esse não se sabia o nome. Apareceu do nada. Era um homem descrito pelos boias-frias como alto, forte, moreno  e de barba rala, que passou a ser visto com frequência pelos arredores da usina e na beirada do rio próximo.

“Vi o sujeito umas duas vezes por lá, na primeira, estranhei o sujeito que andava de preto e tinha uma capa também de pano preto lhe cobrindo o corpo, dos ombros até as botinas. De longe parecia um padre. Na segunda vez que vi o sujeito montado num cavalo castanho. Carregava uma corrente enrolada entre o ombro e a costela, escondida pela capa, coisa que nunca vi homem nenhum fazer”.

Todos que comentavam sobre o tal sujeito diziam que só o viam de roupa preta, como se estivesse saindo de um funeral, e que embaixo da roupa escondia um volume que só poderia ser um revólver ou faca. “O pessoal tinha muito medo de bandido e esse sujeito, diziam que estava andando armado por lá”.

A história chegou até os ouvidos do encarregado da usina, que mandou alguns peões de confiança vasculharem as imediações atrás do sujeito, temendo ser algum bandido ou matador, mas eles não o encontraram em lugar nenhum. Foi avistado depois tomando uma cerveja na cidade e nada mais. O dono do bar contou aos peões que o sujeito mal falara, jogando o dinheiro no balcão e apontando pro que queria tomar, perguntando apenas onde ficava o banheiro.

“Tal como o recém- chegado, desse homem de capa preta, se sabia pouco. Mas os trabalhadores ficaram alertas, não saiam sozinhos e levavam com eles uma faca peixeira no cós da calça, pra andarem prevenidos”. 

  Certa noite, a lua estava muito brilhante e os animais da usina estavam inquietos, agindo de maneira estranha, em especial os cães, mordendo sem motivo e uivando. “O pessoal me contou que eles ficavam uivando e latindo alto, a gente pensou que tinha raposa no mato, rondando. O guarda tentou tanger eles pro mato, mas nenhum quis ir pra lá”.

Meu avô trabalhou até às onze da noite nesse dia e já estava muito cansado. Um pouco antes viu o José se embrenhando no matagal e desaparecer sem retornar. “Ele tava fumando um cigarro e já tava perto da hora dele pegar o rumo de casa, catou as trouxas e entrou mesmo no mato, em vez de pegar o caminho de costume. O sujeito era estranho e isso de entrar nos mato, naquela hora, foi explicado pelos colegas, que disseram que era certo que ele tava atrás das manguinhas que tinha em um pé ali perto”.

Meu avô encontrou-se com seu colega Severino, que estava largando também  às onze da noite, e foi caminhando pelo canavial iluminado pela lua cheia, indo para casa, coisa que já fazia com regularidade. Em algum momento do percurso, Severino o chamou pelo nome e perguntou se ele também estava ouvindo o som que parecia ser de bicho. Meu avô imediatamente despertou das distrações, pois estava com a mente cansada e pensando nos aperreios da vida, e fechou o bico para ouvir melhor.

 “Severino tava olhando pra mim e me perguntou se eu tava ouvindo o barulho vindo dos matos. A gente tava sozinho, mais ou menos na metade do caminho para casa, tudo escuro e só a lua pra iluminar o caminho. Parei pra prestar atenção no que ele tava falando, tava com a cabeça em outro lugar e botei a mão na peixeira, já esperando pelo pinote do tal homem de preto. Mas foi outra coisa que aconteceu: uns pigarros igual o que o porco faz, ronc, ronc, ronc, vindo das canas”.

“Severino e eu fizemos silêncio pra ouvir aquilo direito, parecia com o som de porco velho faz quando tá farejando,  mas não podia ser a zuada de um porco. Fazia uns estalinhos e gania feito cachorro também. O barulho era baixinho e vinha das canas, tava perto da gente, fosse o que fosse, parecia tá querendo falar. Eu nunca tinha ouvido bicho nenhum fazer aquele negócio esquisito”.

  “Fez um silêncio danado naquele lugar e isso foi o pior. Meu coração acelerou, porque tava esperando o bandido ainda. Eu e Severino ficamos bem alerta procurando de onde tava vindo aqueles ronc ronc pelas bordas da estrada de terra, até a gente ouvir  uns piados, como o que galinha faz. Ficamos admirados com aquilo. O som vinha e sumia; teve momento que parecia perto e outro que tava longe, se movimentando, vindo mais pra perto da gente agora. Era a coisa nas canas que tava piando, a gente sabia e apesar do medo, a gente ficou curioso pra saber o que danado era aquilo”.

 “Severino apontou pra cima, pra eu olhar as canas. e eu vi o que ele queria dizer. A ponta das canas altas tava se movendo bem devagarinho na nossa direção e a gente agora ouvia a coisa se aproximar. Não tava ventando. O bicho, fosse o que fosse, era grande. A gente ficou com medo, dava pra ouvir a respiração controlada da coisa e os piados dela foram diminuindo. Subiu um cheiro de ruindade e coisa podre. Nunca senti tanto medo na minha vida, não consegui correr, nem gritar por socorro.  Severino tava acocorado no chão, tentando ver pelas canas algum movimento do tal bicho”.

 “O som de porco voltou de novo, agora com uns rosnados de cachorro. Tava praticamente em cima da gente. Teve um barulhinho de osso estalando, como se o bicho tivesse batendo os dentes. Me arrepiei todo e puxei logo o terço que carregava comigo. A coisa no mato tava farejando, isso ela tava. Depois fez-se outro silêncio desgraçado naquele canavial, nem vento tinha. Meu colega recuou devagar e tava em pé de novo, todo branco de medo. Lembro dele falar baixinho ‘tá aqui, tá aqui, é grande’. A lua deixava clara nossa visão das bordas das canas e quando eu pensei que a coisa ia sair de vez do mato, dá o bote, ouvimos um tiro.”

  “Aquele tiro despertou a gente da situação e só me lembro de darmos no pé dali às carreiras. Ouvi ainda um rosnado da coisa e as patadas dela no chão, fosse o que fosse. Mas não olhei para trás. Cheguei em casa e não consegui dormir naquela madrugada. Tranquei tudo e fiquei segurando um porrete grande e pesado de madeira. Os cães tavam latindo pra escuridão dos mato ainda, tinha vizinho acordado e fui conversar um pouco, pra saber desse tal bicho. Ninguém tinha visto nada parecido. Eles pensava que eu tava brincando”

 No dia seguinte, meu avô e Severino conversaram sobre o que poderia ser aquilo no mato e não chegaram a nenhuma conclusão. ” Severino contou que o galinheiro dos vizinhos dele amanheceu cheio de penas no terreiro e faltando galinha. Só podia ser o tal bicho que piava. Podia ser um cachorro grande que eles nunca tinham vistos por ali ou até mesmo um porco desgarrado de alguma fazenda próxima. Quando eu perguntei pra Severino o que ele viu quando se abaixou, ele contou que viu uma pata longa se movendo devagarinho, até o barulho de tiro”.

Homens da usina, posteriormente encontraram espaços abertos com uns buracos no chão entre as canas e uns pedaços de corrente quebrada também.  Informaram ao encarregado da usina, que concluiu que o incidente provavelmente ocorreu porque alguém ou um animal grande tinha passado por ali, mas não tinha se cortado nas folhas da cana, por que não tinha sangue. Já a corrente foi atribuída a alguma operação da usina. O caminho percorrido pelo animal levava até o rio e depois o rastro desaparecia. O tiro ninguém soube explicar quando eles perguntaram, não poderia ser fogos e então se falou em algum som feito por máquina naquela hora da noite.

“Onde danado aquilo era coisa de máquina? Era pipoco de arma, revólver ou espingarda, certeza. A chefia fez pouco caso do assunto e o dia seguiu”, comentava meu avô sempre que se falava sobre o assunto na usina. Aos outros trabalhadores, ele nunca falou suposto encontro que teve com o bicho com vergonha de não ser levado a sério.

 Depois disso, o tal José não apareceu mais na usina – nem no dia seguinte ao ocorrido, nem nos dias posteriores. O sujeito da capa preta nunca mais foi visto pelas redondezas também. O mistério desse tal bicho logo desapareceu. Tal qual o sumiço desses dois desconhecidos nada mais de estranho ocorreu por ali.

Com o passar dos anos, meu avô mudou-se para a área urbana da cidade. Passou a chamar esse acontecido de o “causo do matador que foi acertar as contas com o lobisomem”, com certa irreverência e com um sorriso.

 Foi essa a história contada por meu velho, falecido em 2014. Se foi verdade ou só se foi uma história para me botar medo? Não sei…  Mas posso afirmar que me fez admirar ainda mais este homem e sentir que quando os velhos se vão, se vai com eles também parte de uma sabedoria única e que não volta mais. Então cuidado ao andar pelos canaviais à noite: o tal homem da capa preta ou a coisa do mato podem estar lá, à espreita…

Contado por  Matheus Henrique