O Menino com Cabeça de Boneco (Meneco)

Um menino de rua que nunca havia ganhado um brinquedo. Chegava seu aniversário, o dia das crianças e o natal e nada de presente. Vivia num lugar cheio de manguezais e campinas e o jeito era se divertir com as brincadeiras de rua. Tinha carrapeta feita de cabo de vassoura e prego que substituía o pião tradicional; soltava papagaio feito com  folha preta de carbono e gostava de tomar banho de canal na maré cheia, e a água era límpida e perfeita para pescaria. Também catava sobras do lixo para se alimentar.

Com a invasão imobiliária e a falta de saneamento básico e o começo do desmatamento dos manguezais veio a poluição das águas com a industrialização e o mundo dos descartáveis.

As crianças nas épocas de festas ganhavam seus brinquedos e os velhos eram descartados nos rios, córregos e canais, O menininho ficava olhando as outras crianças brincando e pulando de alegria com seus familiares. Era tudo que ele sonhava sem saber o porquê da vida que levava. Então, chorava.

O bairro onde vivia estava organizando uma grande festa para comemorar o dia do brinquedo, e só entrava da festa quem fosse convidado; e a brincadeira principal era para as crianças jogassem seus brinquedos velhos nas águas correntes daquele lugar, assim ganhariam outros novos.

A festa varava a madrugada e chovia muito. Mesmo assim, o garoto morrendo de frio foi à margem do rio de lixo e de brinquedos velhos. Não se via água e sim: sofá, pneu, garrafa, fogão, carro e cabeças de bonecos, e estas lhe chamaram a atenção.

Pulou dentro daquele lixão aquático em busca do seu primeiro brinquedo, nesse caso, um boneco. Nadou uns metros para alcançar o seu sonho. Nisso, chegou a notícia que uma criança havia pulado no rio poluído para salvar outra, e todos se deslocaram para lá. Infelizmente só deu tempo de ver o Meneco – Menino com cabeça boneco – desaparecer para sempre nas profundezas do rio de lixo.

Reza a lenda que o Meneco  aparece nas águas poluídas em busca de brinquedos que são jogados fora todos os dias pela população.

Ilustração e texto do pintor Catamisto André Soares Monteiro: artista Brasileiro, nascido no Recife no ano de 1967 que une em seu trabalho sustentabilidade e arte de forma lúdica, colorida e de grande relevância social. André é autodidata e o idealizador do Catamisto – Catar e Misturar o lixo e transformar em arte humanitária.