O Olho

de Mauro Rossiter

Esta mensagem tem a dupla intenção de contar uma história inacreditável e o meu paradeiro. O meu nome é Marco. Estou com 40 anos e passando por um dos piores períodos de desemprego que já tive. O sentimento de ser inútil e fracassado é inafastável. Claro, eu sei que a situação política e econômica na qual o país se encontra não favorece a obtenção de uma nova ocupação. Porém, a nossa mente não trabalha dessa forma e a sensação de ser um nada (ou uma porção de fezes boiando ao léu e alhures) permanece. O fato é que, me sentindo um peso morto para os amigos e os familiares, comecei a procurar qualquer tipo de emprego, mesmo para fazer coisas que não gostava. Em uma dessas andanças, voltei aos shopping centers da metrópole onde vivo. Já havia passado um tempo trabalhando nesses ambientes desprovidos de vida e amor e não era algo que desejava novamente, mas as circunstâncias não me deixavam muitas alternativas. Já era tarde e as lojas estavam quase todas fechadas, quando avistei um rapaz que conhecia de anos passados, quando era funcionário daquele centro de compras. Não lembrava seu nome (e nem ele o meu), mas isso não impediu de conversarmos um pouco. Falamos sobre as agruras da vida e das dificuldades de se arranjar algo para fazer e ganhar dinheiro, quando mudamos de assunto e o moço contou sobre um hippie meio místico que ficava no centro da cidade dando dicas do que fazer para ter um futuro bacana. Nunca, nunca acreditei nessas coisas e nem levei a sério. Entretanto, não tinha nada para fazer naquele momento (e nem em muitos outros, infelizmente) e decidi pegar um ônibus rumo ao coração do município. Em pouco mais de meia hora estava em meu destino. Ainda achava o trajeto (e a cidade toda) muito bonito. Passando por pontes que cruzam rios que entram em contato com o mar. Velhos armazéns de açúcar, barcos ancorados, um antigo forte, mesmo à noite, são encantadores. Descendo do transporte coletivo andei até o ponto indicado pelo colega do shopping, uma transversal de ruas onde algumas pessoas bebiam, conversavam e ouviam músicas de qualidade duvidosa em um boteco sujo. Nesse local não encontrei o mago hippie, mas outro cidadão falando sobre ele, gesticulando para mostrar como era a aparência do feiticeiro urbano, com barba longuíssima que se bifurcava no fim e fazia curvas para cima, uma roupa velha, puída e colorida, além de um odor característico, uma mistura de suor velho e ervas. Em um determinado momento, o homem que descrevia o bruxo fixou o olhar em um pingente que eu carregava no pescoço, um troço que para mim não tinha grande valor, era apenas uma dessas bugigangas fáceis de achar em qualquer feirinha de praia. Era quadrado, de couro, com uma pedra escura no meio. Era feio, mas havia sido dado por uma namoradinha antiga e eu gostava do artesanato. Depois afastou o olhar e continuou contando histórias fantásticas, como a narrativa de uma Perna Cabeluda, uma lenda local, e aparições pelas ruas das redondezas. Saí de perto e olhei em volta. Ao lado, dando continuação à rua onde estava, havia uma escadaria com uns cinco degraus e umas pessoas sentadas nela. Uma delas era um conhecido. Júlio era um cara alto e magro, cabelos pretos e compridos. Vestia uma calça jeans e uma camiseta surrada. Sentei ao seu lado e perguntei o que faziam ali. Ele explicou que o bruxo, em outra ocasião, havia dito a eles para sentarem naquele local e olharem para o céu naquele dia e horário específicos. Então, poderiam ver algo extraordinário. Eu achei o papo estranhíssimo, mas entrei na onda, apoiei o peso do corpo nos braços esticados para trás e olhei para o firmamento. No início não vi nada. Mas de repente, como um flash de fotografia, uma imagem surgiu no meio das nuvens e sumiu. Parecia, não sei bem, um olho enorme! Eu tomei um susto, olhei para os meus colegas de observação e todos estavam sossegados mirando o céu. Voltei para minha posição e pouco depois o olho gigante apareceu novamente, dessa vez com um “corpo”. Não era bem uma forma definida. Tinha tentáculos. Não parecia um polvo ou uma lula. O grande olho, não totalmente aberto, ficava no centro e parecia controlar os apêndices. Essas aparições eram rápidas. De repente, uma das pessoas iniciou um diálogo com outra que tinha chegado, mas não havíamos observado. Uma garota loira sentou na ponta da escadaria, ao lado de um rapaz, e deu para perceber que formavam um casal. Ele se desculpou por não ter prestado atenção à chegada dela, mas a menina pareceu não dar importância a isso e disse que a criatura das aparições havia deixado uma mensagem, explicando que quase ninguém conseguiria ouvir o que ela tinha a dizer. Eu e Júlio nos olhamos com espanto, e ele balbuciou algo como “ela ouviu a criatura”. Só nesse instante eu soube que todos visualizaram a mesma coisa que eu. Quando concluiu sua fala, a moça olhou para frente, em direção à continuação da rua. Era tranquila, longa, com muitas casas e tinha um ar agradável, apesar da degradação ao redor, típica do centro da cidade, com lixo espalhado em vários pontos. Apenas nesse momento todos perceberam que havia faltado energia, tudo estava às escuras.  A loira se levantou e o restante de nós também. Não sei por qual motivo segurei meu pingente e o ergui até a altura dos olhos. Foi com surpresa que observei a pedra no centro começar a brilhar e ficar quente. E dela saiu uma luminosidade que clareou o caminho ao longo da extensa rua. No final do percurso iluminado, uma luz mais forte, esverdeada, nos chamava. Todos nós começamos a seguir esse chamado para o encontro com o desconhecido, uma força irresistível, atraindo nossos passos, primeiro andando e depois em uma corrida insana. Dentro de minha cabeça eu distinguia o medo absoluto amalgamado com um fascínio fora de controle. Seguia atemorizado, sem saber o motivo de correr, mas querendo ir rápido em direção ao olho, que a essa altura já podia ser visto claramente. Mais um pouco e os tentáculos moviam-se lenta e pesadamente bem próximos a nossos rostos. E depois, o depois não existe, nada mais há, nem esperança, só escuridão e dor.