O Segredo do Casarão

Quando encontrou aquele casarão no Recife, o jovem empreendedor pensou que tinha sido abençoado pela sorte. Era o imóvel que ele queria para montar uma equipadora de automóveis. A antiga residência de dois andares seria perfeita esse propósito por causa do tamanho amplo dos cômodos e da localização – uma esquina bem movimentada. Melhor ainda era o preço do aluguel: mínimo, para não dizer ridículo, quando se imagina que o local para fins comerciais. Quando o corretor falou qual era o valor, o rapaz conteve o riso para não transparecer que o negócio era mais do que uma pechincha. Mas logo ele iria perceber o sentido exato da expressão popular: “quando a esmola é demais, até o santo desconfia…”

O primeiro passo foi promover uma reforma no casarão. Era preciso quebrar paredes, ampliar portas, dar lugar a balcões e prateleiras, criar um estacionamento. Contratou os trabalhadores mais dispostos e experientes que encontrou. Contudo, passadas algumas semanas do começo da obra, o patrão percebeu que o serviço pouco progredia. Notou os homens falando pelos cantos, comentando sobre ocorrências inexplicáveis. Diziam que as ferramentas desapareciam misteriosamente, que montes de tijolos caiam sozinhos, que a fiação entrava em curto-circuito sem motivo aparente. Falavam também de uma suposta presença estranha, que os vigiava pelas costa. Um sentimento de opressão que provocava calafrios, explicavam. Por isso, bem antes de cair a noite os trabalhadores saiam rapidinho de lá. Não queriam enfrentar essas esquisitices no escuro.

Sobrava para o vigia noturno contratado pelo jovem empreendedor. Tanto que ele não aguentou. Não demorou muito para ele desistir do emprego. Quando foi perguntado sobre o motivo do afastamento, deu uma resposta vaga ao empregador:

– Olha dotô, nessa casa tem coisa… Tem barulho de porta batendo em quarto que não tem porta, fala de gente em sala que não tem ninguém. E o senhor sabia que tem hora que faz um frio danado aqui? Como é que pode, numa cidade quente dessa? De madrugada, eu chega fico batendo os dentes. E tem mais uns vultos… disso eu num vou nem falar…

Espantado com aquela conversa, o futuro comerciante resolveu tirar tudo a limpo. Será que os moleques da rua estavam atormentando secretamente o vigia? Será que algum vândalo estava prejudicando o serviço dos trabalhadores? Bom, deveria ser razão uma dessas, pois “coisa-de-outro-mundo” não existia, na opinião dele. Com a saída do vigia, ele mesmo – o chefe, o dono negócio – passou a ficar no casarão à noite. Nas primeiras vezes nada percebeu. Todavia, certa vez o jovem se tornou testemunha de situações que desafiavam qualquer explicação racional.

O rapaz ouviu uma voz sussurrante quebrando o silêncio noturno. Vinha de todos os lados e de lugar nenhum. A voz pronunciava palavras incompreensíveis por alguns segundos e depois se calava. Passados alguns instantes, retomava a irritante ladainha. Ouvia também o ruído abafado de batidas nas paredes. Batidas regulares que pareciam ser produzidas de forma consciente, para chamar a atenção. Seria o som de ratos dentro da velha encanação da casa? Apesar de meio forçada, o rapaz ficou com essa teoria, para o bem da sua própria sanidade.

Mas essa quase convicção numa causa material para tudo aquilo foi abaixo quando o jovem passou a sentir o frio relatado pelo vigia. Um frio que não era vencido com casaco ou cobertor. Um arrepio que cortava a respiração e gelava até a alma. E pavor foi o que ele sentiu quando viu no canto de um dos cômodos do andar superior um vulto esbranquiçado em forma de mulher. Estava indefeso diante da aparição. Na casa, ainda não havia luz elétrica que pudesse espantar o espectro. E até a lanterna que carregava que o coitado levava caiu de suas mãos com o susto. Após alguns milésimos de segundo de paralisia provocada pela angústia daquela visão, o rapaz se viu correndo e berrando como um louco. Só parou de fugir quando se percebeu bem longe do casarão.

Pela manhã, sentia-se “de ressaca” pelo susto da noite anterior. Sentia-se também um otário, um “mané” que alugou uma casa mal-assombrada! Mas claro que o aluguel estava barato: tinha outro “inquilino” vivendo no imóvel. O jovem empreendedor logo procurou o corretor com que fechara o negócio. Que história era aquela de oferecer um casarão com fantasma dentro? O corretor suspirou e fez aquela cara de “ai meu Deus, ele descobriu”. Disse apenas que já tinha ouvido falar sobre uma assombração na casa, mas que não acreditava “nesses lances de alma-penada”. Informou também que o dono do imóvel morava em outro estado e nunca tinha lhe dito nada sobre o assunto.

Pensativo, o jovem voltou ao casarão. Antes de desistir de montar no local a sua equipadora, decidiu promover uma investigação para ver se havia algum jeito de vencer aquele pesadelo e seguir com o plano original. Bateu à porta da vizinha do lado esquerdo e começou a perguntar. A vizinha era uma senhora que morava no bairro há muito tempo e acreditava saber a verdade sobre a maldição da casa:

– Era uma mulher muito rica e “pirangueira” que morava ai. O pessoal fala que escondia dinheiro na casa. Morreu sozinha, pois num teve marido, nem filho. Dizem quem ela ainda assombra o lugar para não deixar ninguém achar a fortuna…

Ao escutar isso, o rapaz lembrou-se que, logo no começo da obra, os trabalhadores encontrar um pequeno cofre numa das paredes que eles não conseguiram abrir e que terminou sendo vendido para o ferro-velho. Para confirmar essa hipótese – a de um fantasma mesquinho tentando defender suas riquezas – o empreendedor inquiriu também o dono um fiteiro que existia na rua e que, provavelmente, sabia da vida de todo mundo nas imediações. E esse sujeito contou uma história bem diferente:

– Depois que a velha morreu, um casal recém-casado foi morar no casarão. Mas logo no primeiro mês, a moça caiu de uma escada e quebrou o pescoço. O marido estava no trabalho na hora do acidente. Ao ver a esposa morta, ficou louco e nunca mais voltou para a casa. Dizem que o fantasma da mulher espera até hoje que o cara volte…

O jovem entendeu porque tinha encontrado na casa um armário abandonado, cheio de roupas de cama: nas peças estavam bordadas as iniciais do tal casal vítima da tragédia. Então, espera aí…afinal, o fantasma de quem assombrava o casarão? Intrigado e desanimado, o ex-futuro comerciante de equipamentos automotivos tomou a decisão de desistir do empreendimento. Não tinha jeito mesmo. Com o dinheiro que sobrou, comprou uma lanchonete bem longe dali.

Contado por Benício Ramos