O Vestido Azul

Um conto de M. da Fonte

“Eu não tô nem doido de interrogar o Coronel, Biu. Ainda quero viver muito antes de ir pra terra dos pés juntos. Mas faz uma pena, homem… Coitada de Dona Zulmira… Desaparecer assim, desse jeito? Isso só pode ser obra daquele diabo”.

“Vai ver que ela fugiu mesmo, Tião… Ainda que o Coronel seja metido a cavalo-do-cão, não acho que ele seria capaz de dar cabo da própria esposa. E por causa de uma conversa besta feito aquela? Todo mundo sabe que ela só tinha olhos para o Coronel!”

“Tenho pena também do pobre do médico. Ninguém merece morrer daquele jeito. Amarrado e esfolado que nem bicho… Deixado para sangrar no meio do Matagal… Que morte horrorosa, meu Deus do céu…”

“E sabe o que é pior? Todo mundo sabe que ele andava amigado de Ninha da Estalagem. O povo conta que ele tava querendo se casar com a pobre. A bichinha só faltou se acabar de chorar quando soube que encontraram a aliança no bolso do paletó dele… O mal que uma mentira não faz… Deus me livre da língua de gente invejosa!”

O delegado e o praça ficaram calados durante alguns instantes. Córrego do Campo-Santo tinha sua tradição de histórias escabrosas, e pouca coisa chocava os amigos calejados pelos anos de experiência. Mas a morte do Doutor Araruna e o desparecimento de Dona Zulmira haviam deixado a cidadezinha em polvorosa.

Teria sido o Coronel responsável por aqueles acontecimentos terríveis? Não se discutia outra coisa: fosse nas feiras de sábado, no comércio, nas calçadas das residências, todos tinham uma ideia sobre o que teria acontecido.

Ninguém conseguia acreditar que uma mentira tão infundada pudesse ter acabado com duas das pessoas mais queridas da região.

Poucas pessoas eram tão dedicadas à população quanto o Doutor Araruna, que deixara o Recife para ser médico no interior, abrindo mão de um salário de lorde pela oportunidade de ajudar os mais necessitados. Quem não havia tido alguém de sua família atendido pelo rapaz gentil, que por vezes não recebia nada além de um jerimum ou de uma galinha como pagamento pelo seu trabalho? Quantas pessoas não haviam sido salvas de uma mordida de cascavel ou de um coice de cavalo brabo pelo bom doutor?

E Dona Zulmira… Conhecida de todos da cidade, famosa por usar sempre seus vestidos azuis, ajudava todos que vinham à sua procura: um emprego, comida para passar o mês, dinheiro para enfrentar as secas… Ninguém entendia como uma mulher boa e letrada como ela havia se apaixonado por um demônio como o Coronel Simplício, mas o amor que sentia por ele era evidente em seu olhar: olhava para o marido como se fosse o próprio Jesus ressuscitado.

É como diz o ditado: quem ama o feio, bonito lhe parece.

E não havia nesse mundo pessoa mais terrível que o coronel Simplício. Sua família era proprietária do Engenho do Córrego há gerações, fazendo do açúcar e dos escravos a sua principal fonte de renda, e as crueldades a que os submetiam, nos tempos da escravidão, eram objeto dos mais diversos boatos.

Mesmo décadas após a abolição, riquezas não deixavam de entrar nos bolsos do Coronel, fosse nos tempos de crise, fosse nos tempos de seca. Corriam histórias de que aquela dinheirama era resultado de um pacto com o Coisa-Ruim, a quem o Coronel realizava sacrifícios na calada da noite. Diziam ainda que escondia um tesouro em forma de botija nas profundezas da casa-grande do engenho.

Inimigos daquele homem tinham o costume de sumir sem deixar vestígios, quando não tinham um destino mais sanguinolento. O Coronel tinha o seu próprio bando de cangaceiros, cujas atrocidades fariam com que os crimes de um Virgulino Ferreira parecessem trelas de um menino buchudo.

Não é de se espantar, portanto, que a morte do Doutor e o desaparecimento de Dona Zulmira fossem atribuídos ao próprio Coronel. Um homem como ele não deixaria que lhe pusessem chifres, fossem estes reais ou imaginados. Haviam inventado que Manezinho, o único filho de Dona Zulmira com Simplício, não era dele, era fruto de uma traição da mulher com o Doutor Araruna.

Não havia história mais descabida.

Como o velho Abraão, o legista, havia lhes confidenciado, o delegado Sebastião e o praça Biu eram um dos poucos que sabiam que o coitado do Doutor sofrera um acidente que lhe impedira de ter filhos. E imaginavam que, eventualmente, o Coronel também soubera daquele fato, posto que Manezinho permanecera são e salvo.

Mas quanto ao Doutor Araruna… Um rapaz tão bom, perder a vida por causa de uma invencionice daquelas… Pobre também de Dona Zulmira…!

Sebastião despertou de seus devaneios quando Biu lhe serviu mais uma dose de aguardente. Uma situação tão triste quanto aquela obrigava um homem a afogar seus pensamentos. Sobretudo aqueles que insistiam em lhe torturar como mordida de trinca-cunhão. Não passava de um frouxo que nada podia fazer para garantir um pouco de ordem naquela terra onde o que valia não era nem a lei de Deus nem dos homens, mas a lei do cão.

***

Alguns meses se passaram desde aqueles eventos terríveis. Sebastião cochilava em sua cadeira na delegacia, descansando após um almoço farto na estalagem de Ninha. Uma brisa fresca entrava pelas janelas, quando o Coronel Simplício adentrou na casinha de paredes caiadas.

O delegado despertou sobressaltado com o barulho da porta se fechando e foi ter com o recém-chegado.

Monossilabicamente, o Coronel relatou que seu filho, Manezinho, havia desaparecido.

Havia saído para brincar no terreiro do Engenho do Córrego na tarde do dia anterior, e não havia retornado para a janta.

Preciso de gente para revirar o Matagal de cima abaixo, delegado. O menino andava com umas conversas sem pé nem cabeça de ir brincar com uma amiga naquele mato, e eu acho que é para lá que ele se foi. Acredito que deve ter se perdido ou deve ter sido pego por algum bicho”.

O Coronel manteve a mesma postura altiva e a voz inalterada. Não era homem de demonstrar suas emoções. Sebastião se comprometeu de reunir alguns homens para sair em busca da criança, e Simplício deixou a delegacia.

Sentado em sua cadeira, porém, o delegado pensava ter percebido, por detrás da austeridade e do semblante impassível do Coronel, o fantasma de um homem derrotado, um tremor em sua voz que denotava algo aparentemente impossível: o Coronel Simplício estava assustado.

***

Toda cidadezinha tem suas lendas, e em Córrego do Campo-Santo, não é diferente.

Os pesadelos dos seus habitantes têm uma moradia certa: a mata alta e selvagem a que todos chamam de Matagal.

Lar de monstros inimagináveis, reino de assombrações, covil de bandidos perigosos. O lugar era evitado até mesmo pelos adultos menos impressionáveis, dada a sua terrível má-fama.

Por três dias, Sebastião e os homens do Coronel, juntamente com alguns moradores da cidade, embrenharam-se naquele mato, adentrando grutas e açudes.

A busca terminou no terceiro dia.

Encontraram apenas uma das mãozinhas do menino. Segurava entre seus dedinhos os restos de um trapo azul encardido. As marcas no pulso pequenino apontavam para o ataque de algum predador: provavelmente uma onça.

Naquele dia, todos os presentes testemunharam as primeiras lágrimas que o Coronel Simplício derramou em vida. O homenzarrão, caído sobre a vegetação apodrecida que cobria o solo, abraçava, desesperado, o membro decepado do filho.

***

Pouco tempo depois do enterro de Manezinho, os empregados, um a um, deixaram o Engenho para trás. Relatavam o barulho de risadas infantis pelos corredores, nas horas mortas da madrugada, o ruído de panelas e talheres na cozinha quando não havia ninguém lá, e um vulto azulado, que era visto vagando pela propriedade.

E mais: o Coronel havia enlouquecido.

O homem acordava gritando, acometido de pesadelos terríveis. Andava sobressaltado, como se estivesse sendo perseguido.

Depois de um tempo, passou a ser visto pelos moradores da cidade vagando pelo Matagal. Com o olhar vidrado e as vestes reduzidas a farrapos, clamava aos quatro ventos pela esposa desaparecida e pelo filho morto.

Foi Sebastião que encontrou o corpo do Coronel no Engenho.

No quarto principal coberto de poeira e de teias de aranha, o homem era uma casca do que fora há apenas um ano atrás.

Decrépito e encarquilhado, Simplício cobrira a cama de casal com os vestidos azuis de Dona Zulmira.

Em seguida, dera fim à própria vida com um tiro de espingarda.

***

Uma década havia se passado desde a morte do Coronel. Sebastião estava mais velho, e um pouco mais esperançoso. Depois de anos de tragédias, as coisas finalmente estavam mais tranquilas em Córrego do Campo-Santo.

Com muito esforço, conseguira mandar os filhos para estudar na capital: seriam doutores, para a alegria do pai.

É por isso que foi pego de surpresa com a notícia que chegou à delegacia naquela tarde.

Haviam encontrado dois corpos no Matagal.

Uma mulher e uma criança.

Não era possível… Depois de tanto tempo…

Suas suspeitas, porém, se confirmaram.

No interior de uma gruta de difícil acesso, oculta pelo mato, dois cadáveres se abraçavam: um cadáver pequenino, cuja mão direita havia desaparecido, e outro maior, que trajava os restos encardidos de um vestido azul.

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M. da Fonte é um advogado, escritor e poeta recifense que enxerga no terror uma forma de exorcismo de medos e pesadelos. Tem grande paixão pelas lendas do folclore nacional, e acredita que o Brasil tem muito a oferecer à literatura e ao cinema de horror. Suas influências são as mais diversas: os causos contados em sua família; as obras de M. R. Terci, Márcio Benjamin  e os contos de Poe, Lovecraft e King. Tem contos publicados nas revistas Assombrada BR vol.4 e Diário Macabro vol. 2.

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