O Vulto do Escravo

Este episódio medonho ocorreu com um amigo meu cujo o nome eu prefiro não revelar. Aqui vamos chamá-lo de Artur. Ele é desenhista industrial, na faixa dos quarenta anos, casado. Mora com a mulher e dois filhos adolescentes num condomínio do bairro de Casa Forte, no Recife.

Antes de continuar com a narrativa, é bom lembrar que local é hoje um dos bairros mais nobres da cidade, cheio de belas casas, prédios de luxo, supermarcados e shoppings. Mas, no século XVII (época em que os holandeses invadiram, dominaram e foram expulsos de Pernambuco), a área fazia parte de um rico engenho chamado Casa Forte que pertencia a uma poderosa dama Pernambucana, Ana Paes. Esse detalhe é importante para a compreensão do que vem a seguir.

Artur, como dissemos, é desenhista e trabalha em casa na maior parte do tempo. O condomínio onde mora é composto de dois pequenos prédios e muito espaço livre. Como gosta fazer o seu serviço à noite, quando o silêncio ajuda à inspiração, nos intervalos ele sempre costuma passear na quadra de vôlei ou entre as árvores do parque infantil, enquanto fuma um cigarro.

Numa dessas noites, Artur caminhava num dos locais mais escuros do condomínio quando, entre uma baforada e outra, enxergou a sua frente uma figura que lhe pareceu familiar. Um homem negro, alto, forte, se aproximava a passos lentos, quase se arrastando. “É Severino, o vigia, fazendo a ronda”, pensou o desenhista, que foi logo falando:

– Tá com preguiça, Severino?

Mas o homem não respondeu. Porque não era o vigia. Quando ele chegou mais perto, Artur pôde ver que o sujeito não usava camisa e vestia apenas uma calça branca de algodão. Tinha uma expressão desesperada, um olhar vidrado de quem está com medo. Os pés estavam descalços e, no tornozelo direito, ele carregava uma corrente grossa que fazia barulho ao ser puxada. Artur percebeu que era uma aparição, um “cabôco”, e ficou paralisado. Mas não foi notado pela visagem. O negro passou por ele lentamente e continuou o seu caminho até desaparecer na escuridão.

O desenhista correu de volta ao apartamento, tomou um copo dágua e se enfiou na cama ao lado da esposa: desistiu do trabalho naquela noite. De manhã, parecia um doido falando sozinho:

– Eu viu um escravo do engenho de Ana Paes…

Contado por Marlise Dias