Os Fantasmas de Freyre em HQ

O barão que faz um pacto demoníaco; a família expulsa de um sobrado por fantasmas desordeiros; a adolescente perseguida por um lobisomem; o boêmio que encontra um zumbi ao passear à noite. São personagens retratados pelo sociólogo e escritor pernambucano Gilberto Freyre no livro Assombrações do Recife Velho que agora ganharam uma versão em quadrinhos. Falamos do álbum Algumas Assombrações do Recife Velho, adaptação realizada pela equipe d´O Recife Assombrado que foi lançada no dia 29 de abril na Fundação Gilberto Freyre: no bairro de Apipucos, Zona Norte da capital pernambucana. Veja as fotos:

A publicação é da Global Editora e custa R$ 49. São 72 páginas coloridas com sete histórias de meter medo: “O Boca-de-Ouro”, “Um Lobisomem Doutor”, “O Papa-Figo”, “Um Barão Perseguido pelo Diabo”, “O Visconde Encantado”, “Visita de Amigo Moribundo” e “O Sobrado da Rua de São José”. A transposição de texto para quadrinho foi conduzida pelos escritores André Balaio e Roberto Beltrão, os editores deste site. O processo de adaptação foi acompanhado de perto por Dona Sônia Freyre, filha de Gilberto e atual presidente da fundação que tem o nome do sociólogo.

As narrativas da obra de Freyre se passam no fim do século XIX e começo do século XX. E para garantir que os cenários naturais, as arquitetura, o mobiliário e as vestimentas fossem mostrados corretamente nos quadrinhos, o projeto teve a consultoria da historiadora Naymme Moraes. Os desenhos e o colorido das páginas ficam por conta do artista gráfico alagoano Téo Pinheiro, talento que ganha notoriedade no cenário da produção de HQs nordestinos. Veja algumas amostras do trabalho de Téo:

Uma paixão antiga

Transformar causos de Freyre em quadrinhos é mais do que a realização de um sonho para Balaio e Beltrão. Eles tiveram contato com o livro Assombrações do Recife Velho ainda na década de 80, por meio de amigo em comum: o hoje maestro e professor do Conservatório Pernambucano de Música, Sérgio Barza. Sério, que é afilhado do Mestre de Apipucos, mostrou aos colegas uma edição autografada da obra que ganhara do próprio autor. Na época, o livro estava fora de catálogo e só podia ser encontrado – e com muita dificuldade – em bibliotecas e sebos.

“Foi um alumbramento, como diria Manuel Bandeira”, relembra Balaio. “Não imaginávamos que o Recife fosse tão cheio de histórias de assombração, e por isso passamos a enxergar a cidade com outros olhos”, completa. “O estilo magnifico de Freyre nos conquistou de cara, pois ninguém além do autor de Casa Grande & Senzala poderia contar melhor esse causos medonhos, misturando pavor, humor e crônica sociológica em um só texto”, comenta Beltrão.

A paixão pelo livro  foi tanta, que Balaio, Beltrão, Barza e outros amigos passaram a promover “saraus” para apreciar a obra. Eles se reuniam à noite, em lugares como a Praça de Casa Forte ou o Poço da Panela, para ler em voz alta e comentar os capítulos. “Também fizermos visitas noturnas aos lugares assombrados que Gilberto indica”, acrescenta André Balaio. “Existia um sentimento de aventura nessas expedições, pois estávamos descobrindo o lado sombrio, quase gótico, de uma cidade que, para a maioria, é apenas mais uma capital ensolarada do litoral brasileiro”, observa Roberto Beltrão.

“Pelos quadrinhos, queremos fazer o público entender melhor o trabalho extraordinário de Freyre”, explica Roberto. E complementa: “temos certeza que isso pode estimular os leitores a procurarem o livro original e depois mergulharem de cabeça no universo desse pernambucano que tão bem melhor interpretou o jeito brasileiro de ser”. “Também é uma forma quase amorosa de retribuirmos o encantamento que Gilberto provocou na gente: essa HQ é a melhor homenagem que poderíamos fazer a ele”, concluí Balaio.

Freyre, fantasmas e HQs

Gilberto Freyre sempre se interessou pelo universo das assombrações e do sobrenatural.  Assombrações do Recife Velho  uma reunião de histórias de assombração que tem como cenário sua cidade natal – foi publicado em 1955. É  o resultado de um longo trabalho iniciado por ele em 1929, quando esteve à frente do jornal recifense A Província. Para a concepção das histórias, Freyre beneficiou-se da pesquisa em arquivos e dos depoimentos de seus amigos e familiares, os quais lhe confidenciaram histórias de arrepiar sobre o passado assombrado da capital pernambucana.

Freyre também foi sempre um grande entusiasta das histórias em quadrinhos. A ponto de, quando exercia o cargo de deputado federal (1946-50), propôs na Comissão de Educação e Cultura que fosse feita uma história em quadrinhos da Constituição de 1946. Para a felicidade do autor, sua obra-mestra Casa-grande & senzala foi adaptada para os quadrinhos. Algumas Assombrações do Recife Velho é, portanto, a segunda versão quadrinística feita a partir de trabalhos do Mestre de Apipucos.

 

  • Arlindo Filho

    Ansioso!