Pacto para Ganhar no Bicho

Contado do Marília Maciel*

Minha mãe conta que há inúmeras formas de se ganhar no jogo do bicho, algumas mais bobas como refletir sobre seu sonho da noite anterior, outras envolvendo rezas antes de dormir, pedindo para que o bicho se mostrasse em sonho, ou mesmo a famosa simpatia do cuscuz. Mas algumas formas eram realmente sinistras e ainda mais certeiras no alcance do objetivo.

E como tudo nessa vida é feito de escolhas, fazer um pacto para ganhar no jogo do bicho significaria vender sua alma a você sabe quem, não é mesmo? Pois ela contava que dois moços, cansados da pobreza, em um belo dia resolveram fazer um pacto para ganhar no jogo do bicho e resolver para sempre essa vida de pindaíba e de cuscuz puro ou com ovo. Eles se organizaram por dias antes da noite prevista para a realização da grandiosa cerimônia.

Quando se aproximava da meia-noite, os dois se dirigiram para uma encruzilhada bem afastada do centro da cidade, procuraram um poste, e um dos rapazes foi amarrado a esse poste pelo seu outro colega. Talvez, caro leitor, você esteja se perguntando por que amarrar um dos moços, como eu perguntei à minha mãe na época em que ela me contou esse causo: fazia parte da cerimônia, e eles simplesmente estavam seguindo todos os passos minuciosamente descritos naquele livrinho de rituais.

Parece que na ocasião não houve um consenso para saber quem seria amarrado ao poste, mas depois de muita discussão, eles tiraram no par ou ímpar e resolveram quem seria o sortudo a ficar preso à encruzilhada. Então os rapazes esperaram até que batesse a meia noite e o moço que não estava amarrado começou a ler alguma espécie de oração para invocar você sabe quem. Após a terceira leitura da oração, uma ventania surgiu repentinamente, balançando com avidez as folhas das árvores e até o poste onde um dos rapazes estava amarrado. O outro rapaz, morto de medo, não pensou duas vezes e saiu em disparada, deixando o amigo para trás.

O moço amarrado, também se borrava de medo, mas não podia fazer nada naquela situação, senão esperar para ver o que aconteceria. Foi então, que do meio da ventania surgiu uma mulher, isso mesmo, uma entidade chamada de Maria Padilha, esposa de você sabe quem. Essa mulher se aproximou do rapaz amarrado e lhe perguntou, meio que aborrecida, o que você quer? O rapaz, já cagado de medo, literalmente, desconversou e disse que não queria nada não; que ele havia se arrependido e que ela poderia ir embora.

A mulher, ainda mais aborrecida, lançou um longo olhar de raiva para o rapaz, tal qual alguém que faz uma longa viagem para nada, sacudiu sua saia vermelha e saiu xingando: “Xô cabra! Xô cabra! Xô cabra!”. Mal havia amanhecido o dia, o outro amigo voltou para desamarrar o companheiro, que certamente esbravejou aos montes devido à tamanha covardia de seu suposto amigo.

Baixados os ânimos, eles conversaram sobre o ocorrido e o amigo disse que desistiu do pacto, não fez nenhum acordo, e que a mulher saiu xingando ele, e só! Pois e não é que deu cabra, na cabeça, por três dias consecutivos! Como os amigos não entenderam o recado, eles perderam a chance de ganhar no bicho. Mas minha mãe diz que foi melhor assim, afinal, se eles tivessem ganhado seria por intermédio do próprio capiroto, e suas almas seriam aprisioadas em troca do pagamento pela fortuna adquirida.

*Marília Maciel é uma verdadeira apaixonada pelos causos e contos populares do folclore pernambucano, sejam eles nos engenhos, subúrbios ou ruas da capital. Desde muito pequena, ao visitar parentes e conhecidos em engenhos e bairros mais afastados, adorava ouvir relatos de malassombro. É apaixonada pelas histórias de assombração contadas pelos autores pernambucanos Gilberto Freyre e Jayme Griz. Tentou reunir em seu blog – Enquanto o Papa-figo Não Vem – várias histórias, ouvidas durante sua infância e juventude.