Procissão Fantasmagórica

Se você seguir pelos caminhos ermos do interior, você pode ter um encontro com figuras espectrais.

A história vem de Riacho das Almas, no Agreste de Pernambuco. O testemunho é de uma senhora que, quando criança, morava na área rural do município. Aos doze anos, Maria Severina teve uma visão que jamais esqueceu. Como era de costume em época de plantação de abacaxis, todos os dias, às onze da manhã, ela levava o almoço do pai no roçado. Certo dia, antes de cruzar uma estrada, avistou a uns cem metros de distância um cortejo fúnebre que se aproximava. Tudo indicava que ia rumo ao cemitério para a última despedida a um finado, que vinha sendo carregado  numa rede sustentada por uma trave de madeira apoiada nos ombros de dois homens mais fortes.

Curiosa, a menina parou para olhar. O grupo de pessoas vinha descendo uma pequena ladeira e todos falavam muito alto, porém não se entendia o que eles diziam. E, à medida que eles se aproximavam, Maria Severina notou que todos – até mesmo o morto em sua rede – usavam véus e roupas brancas. Mantinham as cabeças baixas e foram diminuindo o tom de voz de maneira que, ao passarem pela menina, já estavam em silêncio. Todas aquelas pessoas tinham rosto encovados e pálidos como os de um defunto.

Maria Severina esperou todos passarem e, quando começou a cruzar a estrada, ainda olhando o cortejo se afastar, viu aquelas figuras desapareceram de uma só vez. Os cabelos dela se arrepiaram e, muito apavorada, deixou o prato cair e saiu correndo até onde estava o pai. Só voltou com ele no fim da tarde. E daquele dia em diante Maria Severina não levou mais almoço.

Isso teria acontecido na década de 1940. Mas relatos assim são ouvidos até hoje e nos fazem pensar sobre os mistérios que cercam as áreas rurais e as pequenas cidades do interior de Pernambuco. No silêncio dos espaços abertos, dos descampados e caatingas, ocorrem coisas inexplicáveis que despertam um respeito quase religioso nos moradores desses lugares.

Quem passa à noite nos caminhos estreitos e de terra batida pode, por exemplo, ser surpreendido por medonhas aparições: figuras vestindo mortalhas caminham lentamente com se participassem de procissão fúnebre. E quando o grupo se aproxima da testemunha, todos desaparecem, somem de repente na escuridão. Diz a tradição popular que seria uma procissão das almas que padecem os castigos de pecados que as impendem de subir ao Céu e ficam sem rumo na Terra. E fazem penitência para conseguir o perdão pelas faltas que cometeram em vida. Cortejos assim são vistos no município de todas as regiões do estado. Os relatos vêm de Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata, ou de Serra Talhada, no Sertão.

A crença nas visões de desencarnados defilando de forma soturna remonta à da Idade Média. Em vários países da Europa medieval foram registradas narrativas sobre mortos andando juntos à noite, nas estradas, próximo a cemitérios ou mesmo dentro dos mosteiros. Às vezes esses  ajuntamentos macabros eram formados por soldados mortos em batalha. Desfilavam exibido as armas que usaram para ferir outras pessoas, como prova de seus pecados.

A procissão das almas se assemelha a outra conhecida reunião de fantasmas: a “missa dos mortos”. Falecidos se encontram à noite, numa igreja fechada para assistir à cerimônia conduzida por um padre igualmente finado. A intenção também se penitenciar e clamar a Deus por perdão. E ai daquele vivente desavisado que testemunhar esse momento sobrenatural. Logo perceberá que o religioso e os fiéis são caveiras, pois trazem consigo o que sobrou de seus corpos carcomidos pelos vermes.

Arrepiante, não? Pois fique de olho, que voltaremos ao assunto…