Relógio Dourado

–  Onde tem fantasma, covarde cagão não entra…você não tem coragem de entrar naquela casa, né?

Bruno ouviu calado enquanto o rosto ficou vermelho. Quem gosta de ser chamado de covarde? Ainda mais na frente de toda a turma. Oito ou dez meninos da vizinhança. Cagão era ele. Tinha também a Renata, bonitinha que só, que estava lá com duas amigas. Davam risadinhas Neneco cada vez falava.
– Como é? Eu vou entrar na casa… tu não vai, não?

A casa era a mais maltratada daquela rua no bairro da Tamarineira. Abandonada há anos. Onde antes era um jardim, crescia o mato. Fachada desbotada, não dava mais para saber qual tinha sido a cor da da parede. Do telhado pendia um lodo verde escuro. Diziam que coisas estranhas ocorriam à noite por lá. Zuada de móveis derrubados, barulho de pratos sendo quebrados, gritos abafados, vultos brancos passando pelas janelas. As crianças tinham medo até de chegar perto. Umas falavam que viam e ouviam os sinais do malassombramentos. Os adultos tentavam negar. Não é nada, não, menino! Casa velha tem muito rato, e rato faz zuada, é assim mesmo. Explicação besta.

Os adultos também lembravam das últimas pessoas a morar na casa. Casal sem filhos que não era de muita conversa. Os viviam brigando. O marido xingava mais alto. Ele era militar, do Amazonas, e trouxera a esposa de lá por causa de uma transferência de quartel. Não admitia que mulher dele trabalhasse fora, que saísse à rua toda hora, nem que fizesse amizade demais com vizinha. Era moça e alta, morena de olhos muito escuros, corpo bem desenhado. Vivia quase calada entre quatro paredes, varrendo, lavando roupa ou fazendo comida. Só às vezes sorria quando olhava por cima do muro para o quintal ao lado. Dava boa tarde à colega dona de casa, pedia um pouco de coentro ou cominho, porque os temperos dela estavam falatando, falava da novela da oito. Mas bastava o oficial chega ao portão montado num jeep verde-oliva, para ela fechar a cara, até mais, obrigado, depois a gente se vê.

E foi assim até quando veio a cheia do Rio Capibaribe que devastou o Recife em 1975. O bairro da Tamarineira foi um dos mais inundados. Avisados do perigo pela Defesa Civil, os moradores da rua saíram de suas casas antes que chegasse a água. O militar e sua mulher estavam ocupados demais brigando para escutar ao alerta. Imaginou-se
que só deviam ter deixado a casa com a rua já alagada. Mas ninguém os viu saír.

Passaram-se dias até que a água baixasse. Os vizinhos voltaram para suas moradias e encontraram a casa dos vizinhos briguentos fechada. Os móveis destruídos permaneciam dentro dos quatros cheios da lama fedorenta deixada pela inundação. Assim ficariam por décadas. O casal nunca mais voltou à casa. Algumas semanas depois da
enchente,  mandou um cartão-postal para as vizinhas. Escreveu pouco: “agora estou bem. Voltei para Manaus. Abraços, Ivonete”. Por que voltaram tão rápido ao Amazonas? Não queriam mais nada do que havia na residência deles? Ivonete nunca respondeu à carta que a vizinhas mandaram.

Seguiram-se os meses e os anos – e casa lá, se estrangando. Soube-se depois que o imóvel pertencia “no papel” ao casal que parecia não ter nenhuma vontade de vender ou alugar. Ficaria esquecida, até que a prefeitura tomasse posse do terreno por falta de pagamento dos impostos.

E, naquela noite, a casa seria invadida por Bruno e Neneco. Não valia só pular o muro. Era preciso entrar mesmo na casa e trazer de lá alguma coisa para provar. E nada de levar lanterna ou vela,tinha que ser na escuridão mesmo. Neneco foi primeiro. Escalou rápido pelas grades do portão e caiu em pé no meio matagal do velho jardim. Foi até a porta principal que se abriu ao primeiro toque.

– Como é? Vem ou não vem, cabra frouxo?

Bruno pulou o portão quase tropeçando e caiu de joelho do lado de dentro. Levantou-se rápido, correu até porta e deu um encontrão em Neneco.

– Sai da frente, tabacudo! Entro primeiro!

A sala cheirava a mofo. Os olhos tentavam se acostumar à falta de luz. Ouvia a respiração ofegante de Neneco, que vinha logo atrás. Tateou para encontrar algum objeto para servir de prova da façanha. Ficaria em silêncio para Neneco não segui-lo. Sentiu as paredes úmidas até as mãos acherem um portal. Era um quarto onde parecia haver vários móveis. Entre eles, uma mesa de cabeceira.

Bruno apalpou a madeira podre e percebeu uma gaveta. Abriu, remexeu e sentiu o que parecia ser um relógio. Era o troféu que precisava. Quando apertou o relógio na mão, sentiu um arrepio. O ar do quarto escuro ficou gelado. Achou que havia alguém espiando o que fazia.

– Neneco, filho da…

Parou a frase no meio quando se virou e percebeu que estava sozinho no quarto. Tentou sair de mansinho e, ao dar o primeiro passo, ouviu um estrondo, como se alguma coisa muito pesada caísse no chão bem atrás dele. Bruno correu na escuridão sem saber para onde ir. Onde estava a porta da sala? A casa virou um imenso corredor de breu. Ouviu um grito desesperado. Correu correu em direção ao berro e meteu a cabeça numa escada, dessas que se usa para trocar lâmpada. O chororô vinha de cima, do forro do que deveria ser a cozinha.

– Me tira daqui, tô preso! Me tira daqui!

Bruno subiu na escada e achou Neneco entalado numa portinha que havia no forro de madeira. Queria ficar entre o forro e o telhado da casa para fazer barulho e apavorar o rival. Por um segundo, Bruno até achou graça na situação. Mas logo vieram arrepios. Entendeu que precisava fazer alguma coisa para tirar aquele burro da dalí. Já no
alto da escada, agarrou as pernas de Neneco que se mexia feito um doido.

– Fica quieto senão não te ajudo, abestalhado!

Quando Bruno tentou puxar o otário, a escada caiu. Ficou pendurado, se segurando em Neneco, e o forro velho não aguentou. Os dois foram para o assoalho e, por cima deles, veio a madeira carcomida. Não havia se machucado, graças a Deus. Do lado estava o leso chorando, com um corte enorme no braço esquerdo. Reparou bem o sangue
escorrer porque, com o buraco no forro, a luz do poste da rua rasgou o escuro. Viu mais uma coisa no chão. Uma caveira entre ele e Neneco. Ficou ainda mais assombrado quando percebeu outros ossos de gente espalhados no chão. E s dois saíram correndo, claro.

O tumulto na rua foi grande. As crianças chamaram os adultos e os adultos chamaram a polícia, por causa do esqueleto encontrado pelos meninos. Por sua vez, os policiais chamaram os peritos criminais para recolher e examinar os ossos. Os técnicos descobriram uma farda do Exército junto à ossada. Enquanto os vizinhos murmuravam – história mais absurda, credo em cruz, um defunto, quem diria, é bom rezar uma missa, manda benzer a casa -, os olhos arregalados de Bruno perceberam o sorriso da Renata, aquela bonitinha que só. Virou herói por salvar Neneco que, no hospital, levou um monte pontos.

Para não esquecer daquela noite, Bruno guardou bem guardado o relógio masculino, de ouro, onde estava gravado “Da sua esposa Ivonete”. E a casa? Ainda está fechada.E assombrada, dizem.

Contado por Roberto Beltrão