O Rosto na Janela
Num conjunto de prédios residenciais próximo
à Praça Chora Menino, no bairro da Boa Vista, ocorrem coisas
estranhas, como eu iriam constatar de um dos apartamentos naquela noite de
sexta-feira de 1985. A principal testemunha era, na época, uma garota
de 15 anos. Ela e meu irmão mais velho tínham se mudamos para
um dos apartamentos do conjunto há poucos dias e estávam felizes
com a novidade.
Ficava no décimo andar e de lá era possível
ver toda a cidade, o rio Capibaribe e até o mar. Um espetáculo
para nós quem vinha do interior: como já estávam crescidinhos,
nossos pais nos enviaram para estudar na capital.
Mas, apesar da bela paisagem, da facilidade de morar no centro, da liberdade,
uma coisa não agradava à jovem naquele apartamento. Uma sensação
de angústia que não sabia explicar. Como se alguma coisa estivesse
errada naquele lugar. O irmão dizia que era apenas saudade da nossa
casa, da família, da comida da mamãe. Ela até concordava
com a explicação, mas não ficava convencida.
Naquela noite de sexta-feira procurou afastar esse
pensamento negativo e se preparou para dormir. Vestia a camisola, quando o
irmão a informou que iria sair com uns amigos e poderia chegar tarde.
Estava meio chateada de ficar sozinha, mas se despedi dele e foi direto para
a cama.
No quarto tinha uma janela grande, de onde dava para ver um bom pedaço
de céu. A noite estava sem lua e o firmamento era só das estrelas.
Apaguei a luz para observá-las ao som de uma rádio que só
tocava músicas suaves. Fiquei ali deitada durante muitos minutos, sem
conseguir pegar no sono. Até que tocou no rádio uma canção
da qual eu não gostava e a moça se esticou em direção
à mesa de cabeceira para mudar a sintonia.
Quando se virei de volta para a janela, viu que nela estava um homem corpulento,
moreno e de cabelos escuros que a olhava com uma expressão suplicante.
A primeira reação dela foi berrar e sair desesperada pelo corredor.
O medo era tanto que a jovem saiu do apartamento do jeito que estava. Ficou
em frente ao elevador chorando compulsivamente.
Os vizinhos logo chegaram para ver o que tinha acontecido,
mas a coitada não conseguia dizer nada e nem queria voltar ao apartamento.
Foi amparad por uma vizinha até que meu irmão chegasse. Ele
tomou um grande susto, mas depois ficou zangado, dizendo que a irmã
tinha apenas sonhado e que estava dando vexame na frente da vizinhança.
A moça se acalmou e voltoui para casa. Não comentou mais nada
sobre o ocorrido.
Mas, por via das dúvidas, na noite seguinte
pediu ao irmão para dormir no quarto dele. Ele concordou meio a contra
gosto: colocou um colchão ao lado da cama da irmã e só
assim ela consegui pegar no sono. Perto da meia noite ele a cutucou. A moça
abriu os olhos e constatou que ele estava espantado. Ela virou em direção
à janela e a aparição estava lá outra vez!
O homem moreno, com roupas esfarrapadas, os fitava
de modo assustador. A garota ficou sem voz ao perceber que ele flutuava a
vários metros do chão, na altura do décimo andar. O irmão
a puxou pela mão em direção ao corredor: agora ele estava
convencido de que ela não tinha sonhado. Na manhã seguinte,
ele contou a história ao porteiro mais antigo do conjunto que ofereceu
uma explicação para o caso:
- Estes prédios foram construídos num
terreno amaldiçoado! Aqui, nos tempos antigos, muita gente morreu numa
guerra, inclusive mulher e menino. A construção foi muito complicada,
aconteceram muitos acidentes e um pedreiro caiu do décimo andar quando
dava acabamento numa janela. Na época, disseram que ele tinha sido
empurrado... sua alma está penando, querendo justiça. É
por isso que ele aparece pedindo missa...
E assim foi feito. O rapaz providenciou que uma missa
fosse rezada na igreja do bairro. Mas os irmãos não ficaram
para saber o resultado. Mudam-se na mesma semana.
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