A Senhora da Roseira
Por Cynthia Carvalho
No Bairro do Cordeiro, no Recife, existe uma casa antiga
que, segundo os moradores do lugar, foi construída onde existia um
barreiro com muita água, no qual um senhor morreu afogado. Essa casa
foi erguida sobre muitos aterros e os primeiros moradores do local foi um
casal de idosos.
Esse casal levava uma vida reservada. Ele passava o
dia todo fora trabalhando e ela tinha como distração um enorme
jardim cheiro de roseiras para cuidar. À tardinha, a idosa sentava-se
numa cadeira de balanço, feita de palha branca, no terraço para
descansar e por ali ficava horas esperando o seu marido. Somente levantava
quando ele chegava e entravam para jantar.
Contava ela que não gostava de ficar sozinha ali, pois sempre tinha
a impressão de alguém a mais na casa; sentia como se existisse
um homem a lhe seguir todos os passos ali dentro. Contou a seu marido, mas
esse pouco se importou por não acreditar nessas coisas.
Um dia, sem menos esperar, o senhor chegou a casa e encontrou sua mulher morta
sobre a cama. Feita a autópsia, o resultado foi um ataque cardíaco.
Depois disso, ele resolveu mudar-se e vender a casa.
A casa foi comprada por uma família - um casal com quatro filhos. Para
mim foi uma alegria, pois significava mais amigos para brincar. Na rua já
tínhamos uma boa turma e todos por aqui eram mais ou menos da mesma
idade, com os novos amigos a coisa melhorou, pois tínhamos uma enorme
curiosidade sobre aquela casa. Era a oportunidade que precisávamos
para conhecê-la melhor. Todos por aqui sempre acharam à casa
sinistra e, depois da morte dessa senhora, os boatos aumentaram.
Foram muitos meses de brincadeiras por lá. As melhores eram o "Pega"
e o "Esconde-Esconde", muito mais o "Esconde-Esconde",
pois a casa é muito grande, e o jardim e o quintal perfeitos para tal.
Os meninos que moravam na casa nos contavam que ouviam durante a noite passos
pela casa, barulho de pratos, panelas e talheres caindo, além de sentirem
que realmente alguém andava pelos corredores. Algumas vezes o pai deles
acordava à noite um pouco assustado achando se tratar de ladrão.
Pois bem: numa tarde em que brincávamos, um dos garotos parou e me
questionou sobre o que eu sabia do passado da casa, já que corriam
boatos pela rua de que havia uma cabeça de boi enterrada naquele local
e que por isso nada dava certo para quem morava ali. Além das mortes,
o fato de ouvirem as coisas de madrugada o fazia pensar de que tudo era verdade.
Falei o que sabia e contei sobre a senhora que havia morrido lá. Nisso
a brincadeira parou e todos pararam para ouvir.
A conversa se estendeu e já era começo de noite quando estávamos
reunidos no terraço falando do sobrenatural. Esse terraço tem
visão tanto para o quintal como para o jardim e por infelicidade nossa,
era o mesmo em que a senhora adorava passar as tardes em sua cadeira de balanço.
Em certa hora, já estando bastante empolgados no assunto, escutamos
algo que nos fez silenciar: um barulho de ranger de cadeira de balanço,
e isso não era possível, porque lá não havia tal
cadeira.
Foi quando instintivamente olhamos ao nosso redor e, para espanto geral, vimos
uma senhora idosa de longos cabelos e um vestido branco a se balançar
em sua cadeira no quintal, olhando pra nós com um ar de ira em seu
semblante, como se não aprovasse o fato de estarmos ali. A nossa reação
foi a mais óbvia: gritar e correr!
Fomos para fora da casa esperar os pais dos meninos chegarem. Contamos o que
aconteceu, mas pra variar, ninguém acreditou. Depois disso, ninguém
mais quis brincar ali. Passado mais algum tempo, o pai deles faliu, e eles
se mudaram para um apartamento. Os garotos me contaram que os barulhos continuaram...
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