Sussurros no Sítio

…o lugar era cuidado por um
caseiro surdo-mudo….

No bairro do Poço da Panela, Zona Norte do Recife, existe um sítio abandonado que desperta pavor entre os vizinhos. No século passado, o lugar era cuidado por um caseiro surdo-mudo, conhecido nas redondezas por “Môco”. O rapaz era empregado do dono, que quase nunca aparecia na propriedade – uma área cheia de velhas árvores: mangueiras, jambeiros, jaqueiras, goiabeiras. Môco morava sozinho numa casinha no meio do terreno. O vigia era muito severo na função de expulsar qualquer um que tentasse roubar as frutas que ele mesmo coletava e vendia.

Numa noite muito chuvosa, a calma do sítio foi quebrada por gritos, correria e tiros. Ninguém que vivia nas redondezas se arriscou a ir ao local saber o que era toda aquela confusão. Só no dia seguinte, uns poucos curiosos entraram na pequena casa e acharam o Môco estendido, ensanguentado, morto. Nunca se soube quem teria cometido o crime, muito menos o porquê.

O sítio permanceu fechado, à espera de que fosse contratado outro zelador. Mas nenhum candidato aceitou o serviço. É que coisas estranhas começaram a acontecer no lugar desde a noite do misterioso assassinato. Ruídos como os murmúrios que o Môco produzia eram ouvidos pelo vizinhos, principalmente ao cair da tarde. De dentro da casa vinham lamentos incompreencíveis e também sons de passos apressados. Às vezes, ventava repentinamente balançando a copa da árvores.

Ficou cada vez mais difícil encontrar quem cuidasse do local, e com o tempo o mais viável para o dono foi cercar a propriedade com muros altos e esperar que os fatos fossem esquecidos. Mas os vizinhos perceberam que o Môco continuava a fazer o seu serviço: não deixar ninguém se aproximar do sítio…