Tá Correndo Bicho!

Contado por Marília Maciel*

Havia muitas histórias (ou estórias) de bichos que corriam, tarde da noite, nos engenhos pernambucanos, afastados das luzes das cidades. Esses bichos botavam tanto pavor nos moradores que as pessoas mudavam seus hábitos e horários para evitar um possível encontro com um chupador de sangue, meio homem meio bicho, cuja natureza era demasiadamente medonha e sinistra.

Essa história é sobre uma tia avó minha, que morava no Engenho Campo Alegre, e que tendo que visitar sua sogra, minha bisavó Dona Donzinha, no município de Escada, tinha que caminhar cerca de dez horas, em estradas margeadas por canaviais e, às vezes, pequenos vilarejos até chegar em seu destino. Essa distância não espanta, visto que, no passado, era costume rotineiro pessoas realizarem longas caminhadas, que duravam até dias inteiros, para visitar familiares em outros municípios vizinhos.

Após visitar a sogra, normalmente essa minha tia saia bem cedo na manhã seguinte, o que lhe garantia chegar a Campo Alegre ainda à tardinha. No entanto, em certa ocasião, ela se descuidou da hora e deixou a casa de minha bisavó somente ao meio dia. Apesar de estar receosa com o andar das horas, ela queria mesmo retornar para sua casa. Deixou de lado sua apreensão, embora soubesse que, mesmo a passos largos, só chegaria em casa após dez horas da noite.

Naquela época não havia tanta violência e minha tia, diga-se de passagem bastante corajosa, não teria tido seu coração afligido, se não fosse pela tenebrosa notícia sobre um bicho que andava atacando animais nos engenhos ao longo de seu caminho. A estrada era de terra e parecia se estender infinitamente por entre canaviais, matas fechadas e raros vilarejos.

Já havia escurecido e passava das onze horas da noite, mas faltava ainda mais de uma hora de caminhada até sua casa, que ficava em um sítio bem afastado do engenho. Apesar do medo, a noite estava bastante iluminada pela lua e nenhuma criatura havia lhe cruzado o caminho, quando, ao subir um morro, ela percebeu um vulto escuro e muito grande se locomovendo logo abaixo.

Nesse instante, seu coração disparou completamente, pois ela sabia que só havia cana de açúcar em sua volta e, seja qual direção tomasse, ela ainda estava a mais de uma hora de qualquer alma viva. Ela criou coragem e reduziu seu caminhar, esperando que aquela criatura desaparecesse ao longe, no meio do breu.

Quando não mais viu qualquer sinal de criatura, apertou o passo e, finalmente ao chegar em casa, encontrou seu marido que a recebeu desesperado, relatando que não fazia nem meia hora que o tal bicho, que corria por aquelas bandas, acabara de passar urrando alto, muito perto de sua casa.

*Marília Maciel é uma verdadeira apaixonada pelos causos e contos populares do folclore pernambucano, sejam eles nos engenhos, subúrbios ou ruas da capital. Desde muito pequena, ao visitar parentes e conhecidos em engenhos e bairros mais afastados, adorava ouvir relatos de malassombro. É apaixonada pelas histórias de assombração contadas pelos autores pernambucanos Gilberto Freyre e Jayme Griz. Tentou reunir em seu blog – Enquanto o Papa-figo Não Vem  – várias histórias, ouvidas durante sua infância e juventude.

  • Marília Maciel

    Bacana demais Beto!!! Obrigada por compartilhar as histórias de mainha! 🙂