Assombrações de um Passista de Frevo

O recifense Victor Arruda, 31 anos,  é um apaixonado pelo frevo.  Há cinco anos ele se dedica a estudar e praticar os passos acrobáticos do mais pernambucano dos ritmos carnavalescos. Hoje é um passista de destaque no carnaval do Recife. Cada ano prepara, com muito capricho, novas fantasias para cair na brincadeira. Desta vez Victor  misturou o amor pela folia com outra paixão: as tradicionais histórias de assombração da nossa cultura popular. Criou um traje que é uma homenagem ao livro “Assombrações do Recife Velho”, de Gilberto Freyre. Na roupa, foram reproduzidas ilustrações de artistas plásticos como Lula Cardoso Ayres e Fábio Rafael que transformaram em traços seres fantásticos como o Boca de Ouro e a Perna Cabeluda. O Recife Assombrado bateu um papo com o passista Victor para conhecer os detalhes dessa ideia.

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O Recife Assombrado: Como começou o seu interesse pelo frevo?

Victor Arruda: Eu sempre achei o frevo muito bonito, vendo as festas de carnaval e a alegria, apesar de não sair para brincar. Contudo, só tive realmente interesse de mergulhar no universo em 2012, quando decidi aprender a dançar e entrei na Escola de Frevo. Daí então são cinco anos de uma vida minha que se tornou mais colorida e feliz, graças ao nosso Patrimônio da Humanidade, o Frevo. São cinco anos de um encantamento por ele que não tem fim! Graças ao Frevo, caí verdadeiramente de corpo e alma no Carnaval. Todos os anos, eu estreio uma fantasia nova para o período, sempre com um tema diferente. Vale dizer que minhas fantasias, no fundo, são antes de tudo, roupas de passista, feitas para que eu possa frevar. O grande diferencial das roupas tradicionais dos passistas de frevo é que as minhas possuem um tema diferente e nisso posso dizer que elas são únicas, especiais: tem de gari, de alemão e até de duende do Papai Noel!

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Como surgiu a ideia de fazer uma fantasia sobre as assombrações?

Eu curto histórias de assombração. Gosto muito de filmes de suspense. Essas histórias atraem justamente pelo sobrenatural, aquilo que está além da nossa razão, do nosso conhecimento. Mesmo que alguns não reconheçam, o mistério da morte e do que pode haver depois dela exerce um fascínio sobre o ser humano.  Há muito tempo tinha vontade de ler o Assombrações do Recife Velho, do mestre Gilberto Freyre. Alguns amigos já tinham me recomendado. E resolvi lê-lo em 2015. Foi uma paixão arrebatadora. Fiquei fascinado pela obra. Ela deu a conhecer outra face da história do Recife, a cidade do sobrenatural, a mais assombrada do Brasil. Freyre nos apresenta vultos e entidades conterrâneas, tão pernambucanas como a gente! Mostra que até no quesito de assombrações nossa cultura pernambucana é autossuficiente, não precisa das assombrações importadas do cinema americano. Meu preferido do livro é o Boca de Ouro (que inclusive levo estampado nas costas da fantasia, em destaque). Freyre faz um alerta para a destruição da história e do patrimônio do Recife, quando afirma que também almas de velhas casas e igrejas históricas postas abaixo vagavam pelas ruas da cidade. Não poderia ser mais atual. Passei a ver a cidade com outros olhos. Já amava o seu casario histórico e, desde então, tentava imaginar o sobrenatural que eles poderiam guardar.

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Na roupa estão imagens de vários personagens. Mas ela representa uma assombração específica?

Sim, na roupa temos a Emparedada da Rua Nova, a Velhinha da Caxangá, a Perna Cabeluda, o Barão de Escada, fantasmas meninos, sobrados assombrados, o lobisomem (meio homem, meio lobo, meio porco), o Papa-Figo e o Boca de Ouro (este nas costas e em destaque, por ser minha assombração preferida). Aproveito aqui para agradecer mais uma vez a você pela permissão para usar as figuras da Perna Cabeluda e do “Lobisporco“! Pois bem, a roupa – um traje fraque de época com cartola – não representa uma assombração em si, mas sim representa como se vestem algumas das assombrações frequentes daqui: homens da aristocracia e da burguesia, como o “Barão de Escada” e o “Velho Suassuna”. Escolhi também uma roupa de época para lembrar que o Recife é uma cidade assombrada há mais de 400 anos.

Como foi o processo de confecção da fantasia?

Bem, o traje é concebido por mim, porém ele é confeccionado por um casal talentosíssimo chamado Elvis e Deyse Gomes, com quem tenho essa parceria todos os anos. Todas as minhas outras fantasias fiz com eles. Eu sempre levo a ideia, o projeto com um esboço, conversamos e vemos como se fará. E sempre recebo algo melhor que o imaginado, porque eles têm o know-how de fantasias: eles sabem onde colocar lantejoulas, galão, pedras coloridas, que tecido utilizar na confecção… enfim, como materializar meu projeto numa fantasia que fique bem carnavalesca e também me permita frevar. Posso dizer sem sombra de dúvida que o projeto desta das Assombrações foi o mais trabalhoso de todos, porque corri atrás de muita coisa, como pesquisas aprofundadas sobre as assombrações, busca de imagens, de tecido especial, de uma gráfica que imprimisse nesse tecido. Até ficar pronta, desde que apresentei a ideia, foram quase oito meses. Foi bem puxado, mas foi a que mais deu satisfação de produzir!

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E como vai ser a sua participação no carnaval deste ano com essa fantasia assombrosa?

Vou utilizá-la agora no Baile Municipal (18/02), onde inclusive vou colocar para concorrer no concurso de foto-fantasia. Também vou sair com ela na semana pré, no Recife Antigo (ainda não sei o dia). E vou vesti-la para o Bacalhau do Batata, para fechar com chave de ouro o período de fantasias!