Visagem na Madrugada

Contado por Marília Maciel*

No início da década de 80, o bairro de Ponte dos Carvalhos, principalmente no trecho onde morávamos, era bastante ermo e, ao sair tarde da noite, raramente se via uma viva alma nas ruas. Porém, em uma certa noite, quando minha tia Ana voltava para casa após ter saído em busca de um remédio para minha mãe, ela percebeu que não caminhava sozinha pelas ruas.

Ao virar a esquina da avenida principal com a rua da antiga “sinuca”, um bar muito conhecido naquela região do velho Engelho Ilha, ela instintivamente olhou para trás e percebeu que havia uma mulher com um longo e esvoaçante vestido vermelho e que andava a passos largos em sua direção, praticamente cambaleaando ou balançando no ar. Nesse instante, minha tia se arrepiou da cabeça aos pés e percebeu que aquilo não se tratava de uma pessoa em carne e osso, mas sim de uma assombração que, sabe-se lá o porquê, cismou de correr atrás dela, justamente quando ela dobrava a esquina daquela encruzilhada.

Sem raciocinar muito para entender o que era aquela assombração, e por que estaria atrás dela, tia Ana começou a fugir desesperada daquela mulher assombrada com um vestido vermelho e cabelos esvoaçantes. Quanto mais ela corria, mais perto a mulher chegava. Como naquela época todas as ruas do antigo Engenho Ilha eram de terra batida, e para ser sincera, até pouco tempo ainda eram, tia Ana se danou a pisar nas poças de lama e a perder os chinelos, chegando finalmente em casa esbaforida e aterrorizada.

A assombração sumiu quando finalmente ela dobrou a esquina da rua onde morava. Ao chegar em casa, que ainda era iluminada por lampião, ela contou o ocorrido a minha mãe, que sempre diz que nunca viu minha tia tão descabelada e enlameada semelhante àquele dia. Parece mesmo que essa assombração costumava habitar aquele trecho do bairro, pois alguns moradores relatam que, até há alguns anos atrás, essa tal mulher de vermelho ainda aparecia nas ruas, sempre depois da meia noite, correndo atrás de pobres almas vivas desavisadas.

*Marília Maciel é uma verdadeira apaixonada pelos causos e contos populares do folclore pernambucano, sejam eles nos engenhos, subúrbios ou ruas da capital. Desde muito pequena, ao visitar parentes e conhecidos em engenhos e bairros mais afastados, adorava ouvir relatos de malassombro. É apaixonada pelas histórias de assombração contadas pelos autores pernambucanos Gilberto Freyre e Jayme Griz. Tentou reunir em seu blog – Enquanto o Papa-figo Não Vem  – várias histórias, ouvidas durante sua infância e juventude.

 

  • Natália Monteiro

    Ansiosa para assistir…