A Sina da Mula-sem-cabeça

Se os machos da espécie humana correm o risco de virar lobisomem, as mulheres podem se transformar em uma criatura ainda mais terrível se caírem vítima de uma maldição. Imagine uma mula (ou uma burrinha) que costuma correr em disparada noite adentro, que tem cascos afiados como navalhas com os quais dá coices capazes de ferir quem passar por perto, que não tem cabeça e ainda sim solta labaredas pelas ventas. É uma assombração brasileira clássica: a Mula-sem-cabeça!

E a mulher refém dessa surreal metamorfose, de acordo com a tradição popular, está recebendo o castigo por ter cometido um pecado: ser amante de um padre – é por isso que em muitas locais do Brasil a assombração é conhecida como “Burrinha-de-padre”. Logo depois do primeiro encontro clandestino com o religioso sem vergonha, a infeliz
começa a sofrer os efeitos da punição sobrenatural. Nas noites de quinta par sexta-feira, vira a horrenda mula e sai correndo pelas estradas. E enquanto corre emite sons medonhos, gemidos medonhos de alguém sofre uma dor aguda. Só para quando vai chegando o alvorecer, quando o galo canta pela terceira vez.

Em muitas cidades, vilas e arruado de Pernambuco moradores testemunharam a passagem de Mulas-sem-cabeça – sinal que não foram poucas as senhoras e moças seduzidas por padres safados, transgressores do voto de castidade que fizeram. Até no Recife elas foram vistas, principalmente até o começo do século XX, em localidades então descampadas com a Capunga.

Existe com desfazer a maldição da Mula-sem-cabeça? Para isso é preciso ser corajoso, enfrentá-la de peito aberto, sem qualquer tipo de arma, e tirar da boca da mula um arreio mágico de metal  que a faz sofrer e berrar. Mas como é possível tirar alguma coisa da boca de um animal se ele não tem cabeça? Isso é lógica bizarra das assombrações e não adianta tentar entender. Até porque ninguém até hoje foi valente o bastante para desencantara a coitada.

Contado por Roberto Beltrão

Ilustração  do pintor Catamisto André Soares Monteiro: artista Brasileiro, nascido no Recife no ano de 1967 que une em seu trabalho sustentabilidade e arte de forma lúdica, colorida e de grande relevância social. André é autodidata e o idealizador do Catamisto – Catar e Misturar o lixo e transformar em arte humanitária.