As Matas da Caipora

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Braba feito a gota serena, a Caipora já aperreava dos índios antes dos portugueses chegarem ao Brasil. É vista em vários estados do país e também tem feitos das suas em Pernambuco. Nem todos concordam sobre como seria a aparência dessa entidade das brenhas: uns dizem que é um fogo azulado que corre nos matos, outros que é uma mulher de um pé só em forma de garrafa, outros ainda que é uma criança peluda com uma cabeça enorme e cabelos vermelhos.  Falam também que ela vive com os caititus – uma espécie de porco do mato – que são seus bichos de estimação.

Seja como for, é melhor não mexer com essa criatura encantada pouco amigável. A gente das fazendas e dos sítios afastados explica que a Caipora costuma gritar, cortando o silêncio da mata onde vive, pois é  espírito de caboclo, alma de índio, e não quer ver homem branco atravessando seus caminhos. Quando uma neblina leve aparece sobre a copa das árvores no começo de uma manhã fria, dizem que a Caipora está fumando – isso porque ela gosta muito de fumo e aceita o produto como oferenda para permitir que as pessoas passem pela floresta sem serem incomodadas.

Pois certo dia, um morador da cidade de Triunfo (Sertão pernambucano), chamado Josa, apareceu com o pescoço torto depois de voltar de uma caçada. Foi culpa da Caipora que deu no cachorro que ele levava e depois correu atrás de Josa e dos outros caçadores. Para livrar-se da Caipora, o sujeito correu, correu tanto, que caiu e ficou com o pescoço trocho, como o rosto virado para trás! Outros caçadores também voltaram para casa com marcas da surra que a Caipora deu. Isso porque eles se esqueceram de oferecer fumo para ela na entrada da mata.

Contado por Roberto Beltrão
Ilustração: André Soares Monteiro – artista plástico idealizador do Movimento Catamisto (Catar e Misturar o lixo para transformar em arte)