O Pai do Mangue

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Existem duas versões para esta entidade tipicamente pernambucana. Uns garantem que a história vem desde o século XIX e teria surgido entre os negros da comunidade Ilha do Maruim, em Olinda, após a abolição da escravatura. Contam que o Pai do Mangue pode ser branco, cabeludo, dentuço e de pés grandes. Visto assim, ele se assemelha em ruindade aos antigos senhores de engenho que maltratavam os escravos. Tem o costume de roubar crianças que entram em seus domínios. Contam que, às vezes, é visto nas praias, pescando durante os primeiros raios de sol, exibindo toda a sua empáfia.

Outros têm a certeza de que o Pai do Mangue é uma entidade invisível, que governa as vegetações ribeirinhas e defende os mangues. Muitos pescadores contam que, quando entram naquela área, escutam as passadas dele na água rasa. Lentamente.

Certa vez, dois pescadores resolveram partir para o mangue na intenção de conhecer explorar as margens e pescar. Chegando lá, mexeram em tudo que encontraram e falaram palavrões. Quando começou a escurecer, resolveram voltar. No retorno, a terra começou a se mover e o mangue foi fechando, fechando, até os sujeitos ficarem presos. O Pai do Mangue, enraizado à própria vegetação, começou a chicoteá-los e só os soltou depois de muita surra.

E moradores do bairro da Torre, no Recife, também dizem conviver com esse personagem. São famílias que residem próximo aos manguezais que existem nas margens daquele trecho do Rio Capibaribe. Nessa margem há um ponto onde barqueiros fazem a travessia das pessoas que precisam chegar ao outro lado, no cais do bairro da Jaqueira. Isso durante o dia. Quando cai a noite, o local fica deserto e sombrio. É quando a vizinhança percebe a presença sinistra do Pai do Mangue, que caminha na lama e solta gritos medonhos.

Contado por Roberto Beltrão
Ilustração: André Soares Monteiro, artista plástico idealizador do Movimento Catamisto (Catar e Misturar o lixo para transformar em arte)