Os Fantasmas do Poço da Panela

Um lugar cheio de mistérios  e assombros de tempos antigos,

Foto: Fábio Rafael

Fotos: Fábio Rafael

Encravado entre o bairro de Casa Forte e o Rio Capibaribe, fica um dos pontos de maior concentração de fantasmas e assombrações do Recife: no arraial do Poço da Panela reina um clima nostálgico, quase como se o tempo ainda fosse o das sinhazinhas, escravos e senhores de engenho que mandavam em Pernambuco até o século XIX. Lá predominam os casarões, as ruas calçadas com pedras irregulares, as árvores velhas e frondosas que peneiram a luz, produzindo tenebrosas sombras, mesmo com sol a pino. Um cenário mais do que propício para o surgimento de fenômenos sobrenaturais.

Muitos dos casarões do bairro mantiveram a sua imponência, como lembranças sólidas de um tempo de fartura. Sobre alguns deles são contadas histórias bizarras: de luzes fantasmagóricas vistas à noite pelas janelas, de barulhos estrondosos em quartos onde ninguém está presente, de botijas escondidas nas paredes e apontadas em sonho por almas penadas.

 

Foto: Fábio Rafael

Conta-se, por exemplo, que lá existe um sítio cujo zelador era surdo-mudo. O rapaz era conhecido nas redondezas por “Môco” e morava na propriedade, numa casinha, e não só vigiava como fazia a limpeza e coleta de frutos. A vida de Môco não era, porém, apática. Não se envolvia em jogo, brincadeiras, festas, mas exercitava a arte da conquista com as moças que trabalhavam como domésticas nas casas próximas. Suas limitações não eram empecilhos na hora de se comunicar com as garotas. E o isolamento do sítio ajudava – um local adequado para encontros sigilosos.

Mas a carreira do sedutor pouco durou. Numa noite muito chuvosa, a calma do Poço foi quebrada por gritos, tiros e uma correria. Ninguém soube do que se tratava, mas também ninguém quis se arriscar a entrar no sítio para investigar. No dia seguinte, encontrou-se, no sítio, o Môco  estendido, ensanguentado, morto. Nunca se soube quem teria cometido o crime. Um rival? Uma amante abandonada? O pai de uma moçoila enganada? Nenhuma pista, só rumores…

A propriedade ficou fechada até que fosse contratado outro zelador. Mas nenhum candidato aceitou o serviço. É que coisas estranhas começaram a acontecer no lugar desde a noite do misterioso assassinato. Ruídos como os murmúrios que o Môco produzia eram ouvidos pelos vizinhos, principalmente ao cair da tarde. De dentro da casa vinham gritos e passos, lamentos. Às vezes, ventava repentinamente, balançando a copa das árvores do terreno. Ficou cada vez mais difícil encontrar quem cuidasse do local. Com o tempo, o mais viável para os donos foi cercar a propriedade com muros altos e esperar que os fatos fossem esquecidos. Eles perceberam que o Môco continuava a fazer o seu serviço: não deixar ninguém se aproximar do sítio.

Os moradores mais antigos do Poço da Panela relatam muitas outras aparições fantásticas. Num dos sobrados abandonados da vizinhança, por exemplo, à noite é visto pela janela um misterioso homem vestido de preto, que parece rezar diante de uma vela. Ninguém até hoje se atreveu a entrar no casarão neste momento para perguntar o motivo de tantas preces. Estaria o fantasma pagando uma dura penitência por um pecado capital cometido em vida? Quem teria coragem de perguntar?

Alguns dos mal-assombros do Poço da Panela, no entanto, não são apenas visagens difusas das quais é possível fugir com facilidade. Perto da igreja do bairro, existe um monumento em homenagem ao abolicionista José Mariano – um morador do Poço no século XIX. O busto do ilustre pernambucano foi colocado sobre uma coluna de pedra e, em frente desta, foi posta uma estátua completa de um negro de peito nu, tendo nos pulsos correntes quebradas: símbolo da vitória diante da opressão. Alguns moradores do Poço da Panela testemunham que, em certas noites, quando todas as casas estão com as suas portas e janelas fechadas, a estátua de bronze ganha vida e caminha pelas ruas com passos arrastados.

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Os que já presenciaram esse passeio absurdo se arrependem de ter deixado a segurança de seus lares, nas horas dominadas pelo silêncio e pela escuridão. Afinal, o Poço da Panela é território livre para o sobrenatural…

Contado por Roberto Beltrão (trechos do livro Estranhos Mistérios d´O Recife Assombrado)

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