Pactos Diabólicos em Pernambuco

Desde que os europeus chegaram ao Brasil, ele tem feito das suas por aqui. Nos trópicos, o Senhor dos Infernos incentivou todo tipo de pecados que eram praticados sem culpa por brancos, negros e índios. Entre os sete pecados capitais, um dos mais comuns em Pernambuco era a luxúria, que envolve sexo fora do casamento, desrespeito à castidade, prostituição, bigamia e adultério. No século XVI, o Padre Francisco Pinto Doutel, pároco de São Lourenço, assim falou num de seus sermões: “Vós outros homens não quereis senão fazer adultérios a vossas mulheres, pois desenganai-vos que elas na mesma moeda vo-lo pagam”.

Mas Satanás aparentemente não apenas incentivava o pecado em terras brasileiras, como também cooptava seguidores que o idolatravam e praticavam rituais proibidos. Quando os integrantes do Santo Ofício – ou seja, da Inquisição – estiveram em Pernambuco entre 1593 e 1595 identificaram várias pessoas que supostamente seguiam as determinações do Demônio, como feiticeiros e bruxas. De acordo com os registros, Domingas Brandôa fazia cerimônias com uma vassoura para adivinhar o futuro e ainda invocava o nome de “Barrabás”. Já Felícia Tourinha teria invocado “o diabo guedelhudo, o diabo orelhudo e o diabo felpudo”  ao ser presa acusada de se amancebar com um homem casado.

Claro que muitas dessas acusações eram resultado de um clima de fanatismo histérico que tomou conta da Igreja Católica naquela época: pessoas eram torturadas, condenadas e executadas em nome da religião apenas por terem um comportamento fora dos padrões considerados aceitáveis e decentes.

Barão perseguido

Os anos se passaram e outros pernambucanos se envolveram com Príncipe das Trevas. No século XIX, ficou famoso o caso do barão que foi amaldiçoado por um desses pactos sinistros. Não se sabe quais favores o fidalgo conseguiu; comentava-se apenas que, vez por outra, ele era convocado para um encontro com o Maldito ao qual não podia recusar. Era visto em lugares ermos, em noites sem lua, a galope num cavalo enviado pelo próprio Demônio para conduzi-lo ao local marcado.

Não se tem a mínima ideia do que ocorria nessas reuniões. Quando voltava, o barão apresentava o rosto muito pálido, como o de um cadáver, e os olhos esbugalhados. Ficava com o corpo dolorido por vários dias, como se tivesse levado uma surra. E os encontros com o Chifrudo se repetiram, de tempos em tempos, até a morte do barão. Falou-se  que o Demônio levou não só a alma como também o cadáver do ricaço. Tanto que a família teve que encher o caixão com pedras para fazer uma espécia de enterro falso no Cemitério de Santo Amaro, no Recife.

A lenda foi registrada por Gilberto Freyre no livro “Assombrações do Recife Velho”, publicado pela primeira vez em 1955.  E a narrativa de Freyre foi transformada em história em quadrinhos no livro “Algumas Assombrações do Recife Velho“, lançado pela editora Global. A ilustração acima foi feita pelo quadrinista Téo Pinheiro para a publicação.

Ponto de encontro

Pelo menos existe uma pista sobre qual  lugar  o “Coisa Ruim” mais gosta de frequentar em Pernambuco: a Cruz do Patrão, na área do Porto do Recife. No começo do século XX, por exemplo, um estudante foi assassinado no local e um soldado foi acusado pelo homicído. Tempos depois se descobriu que o culpado seria outro sujeito – ele teria confessado que praticou o crime motivado por um “espírito infernal”. A confissão acabou não adiantando:  o soldado terminou morrendo na cadeia sem conseguir provar sua inocência.

No livro “Folk-lore Pernambucano”, o historiador F. A. Pereira da Costa conta que a fama macabra da Cruz do Patrão mexeu com o imaginário dos recifenses: dizia-se que quem estava “em busca de venturas” poderia ir ao pés do antigo monumento à meia-noite em ponto para firmar com o Demônio “um pacto solene com sangue de suas próprias veias”. Em troca o sujeito alcançaria sorte e riqueza.

Nomes

O Demônio é chamado por muito nomes em Pernambuco: Arrenegado, Cafute, Cafutinho, Cão, Capataz, Capeta, Chifrudo, Demo, Droga, Excomungado, Ferrabraz, Fúria, Fute, Inimigo, Maldito, Mofino, Não-sei-o-quê-diga, Pé-de-pato, Tinhoso, Tisnado e Sujo.

Contado por Roberto Beltrão