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  • Foto do escritorO Recife Assombrado

A estrada dela


Estava perdido. Mais por não saber onde queria ir do que por não ter ideia de onde estava. Lembrava ao menos de onde tinha vindo. A Casa de Lucrécia estava em seu suor, escorrendo pela testa marcada. O cheiro das putas se agarrava às suas mãos, ao seu cangote, à sua virilha, à sua boca, emoldurada pelo bigode descolorido pelo cigarro. Tirou um do bolso do peito, úmido e flácido como sua masculinidade depois do borrão das horas sob a luz vermelha de Lucrécia. Aproximou os lábios da chama do candeeiro, piscando com o amareleço limitado que revelava, de lado a lado, a brenha baixa que o acompanhava desde a partida. Caminhava devagar, a vontade amortecida pelo álcool e o objetivo roubado pela vida mesmo. Só sabia que não podia parar. Fumava com a mesma mão que segurava a lanterna enquanto a outra se agarrava à garrafa que ia se tornando cada vez mais leve. Escutava o triturar dos próprios passos no barro seco da estrada. O triângulo havia ficado para trás. A sanfona, a zabumba e as risadas estavam presas entre as paredes enfeitadas de Lucrécia. Os gritos também. Apertou o passo. Não podia parar. Sabia o que lhe aguardava no começo de suas pegadas. Não era homem de correr, mas também não era tolo de ficar. Decidiu caminhar sem pressa, que o punhal na sua cintura era bom aviso para os que não conheciam a sua reputação. Levantou os olhos para a estrada, para melhor se fixar no caminho que não conhecia e nem sabia onde levava, quando a viu.


Era uma alvura suspensa na curva da estrada, imóvel e silente. Parou. Esfregou a manga da camisa na fronte empapada, apertou os olhos e firmou os pés. Continuava lá. Não sabia o que era, mas sabia que não gostava. Não queria sujar o punhal mais uma vez naquela mesma noite, então achou por bem seguir por uma bifurcação. A figura pálida não esboçou reação. Caminhou com o vulto no canto dos olhos, se afastando devagar até virar uma impressão pesando sobre a nuca. Virou a cabeça pra trás e viu apenas a curva iluminada pelo luar. Voltou o olhar para frente e sentiu a garrafa escapar-lhe entre os dedos suados. Estava à sua frente, no meio da estrada, ainda distante, mas perto o suficiente para que notasse os laços desfeitos da camisola alva e o contraste dos cabelos negros sobre a renda. Não lhe retribuía o olhar, que trazia baixo, enviesado, como se ela escutasse uma zoada distante, para ele muda. Só percebeu que sua própria mão empunhava a faca quando a chama da candeia refletiu-se na lâmina avermelhada. Gritou. Berrou ameaças. Desfiou ultimatos e advertes com a voz rouca de fumo e de falta de uso. Ela não se buliu. Trazia os braços junto ao corpo, mãos repousando ao lado dos quadris estreitos. Ele nem correu e nem ficou. Tomou um desvio, apertando o punho da arma até deixar lívidos os nós dos dedos, tão brancos quanto a pele dela. Andou devagar, trazendo a brancura nas vistas, até finalmente deixá-la para trás, pousada imaculada sobre o barro avermelhado. Orientou-se para frente e segurou o lume com força, deixando escapar um gemido quando a viu novamente. A chama em sua mão trêmula fazia as sombras dançarem, como os caboclos e as raparigas sobre o chão de terra batida de Lucrécia. Lutava contra o peso dos pés e olhava sem querer ver os cachos de azeviche que cascateavam sobre o peito imóvel. Agitavam-se. O rosto dela voltava-se em sua direção. Ele abandonou punhal e coragem e correu.


O matagal brotava e morria no bruxulear da candeia que rodopiava sobre sua cabeça. Não sabia para onde ia, apenas o que lhe aguardava no refazer dos seus passos. A Casa de Lucrécia. As paredes azedas de suor velho, o chão pisado de pés calejados, os quartos sufocados, engasgados de móveis escuros e encanecidos. Foi para um deles que a levou. Sobre a cama apertada, fedendo a mofo e a mijo, havia provado que era homem e ela havia aprendido o que era ser mulher pela primeira vez. Os tabefes foram para afogar o choro infantil. O punhal foi para calar os gritos. O alarido o acompanhou por pouco tempo depois e não houve quem lhe desafiasse os gostos e os atos. A Casa de Lucrécia perdeu-se numa curva vagarosa, luz rubra e lamentos negros escoando pelas janelas. Lembrava e corria, para lugar nenhum, cego de horror, do quarto, de si, dela. Ela.


Foi ao chão em um baque, tropeçando em uma pedra invisível. A lanterna rolou de sua mão e se apagou, engolfando-o em escuridão. Arrastava-se pelo barro, bufando e gemendo, coiceando torrões de argila. Não era mais homem, era um bicho. Fuçava a terra carmim, como as manchas nos lençóis de Lucrécia. Vermelhas as almofadas. Vermelhas as paredes do quarto. Vermelhas as coxas dela. Vermelhas as mãos dele. A estrada não era mais barro amolecido, era sangue coagulado, cobrindo-o como uma mortalha. Não podia parar. Chafurdava e grunhia, sempre em frente, até deparar-se com dois pés de menina. Chorou. As lágrimas traçavam caminhos na vermelhidão do seu rosto. Levantou o queixo trêmulo, subindo pela barra da camisola intocada, passando pelo brocado no busto que não se movia. Não queria ver, mas os olhos o puxavam para o alto, prostrando-o sobre pés e mãos, como um cão. O luar era absorvido pelo negror daquelas madeixas. Ali, luz nenhuma se perpetuava. Ela continuava olhando para o lado, atenta ao começo da estrada. Cachos e anéis negros começaram a se mover lentamente. Ele pousou uma mão escarlate sobre a boca seca, segurando o grito com dedos e dentes apertados. O rosto dela se ergueu, revelando lábios pálidos. Mantinha os olhos fechados. Alçou o queixo delicado e, sob ele, estava o rasgo. Ele sentiu a urina quente escorrendo pelas pernas. Ela lançou a cabeça para trás, revelando o corte, que se alongava e se alargava, como uma boca repleta de trevas. A escuridão escapava de sua garganta aberta, cobrindo a lua e as estrelas. Dedos e dentes não mais puderam conter o grito.


E então, tudo era escuridão.


 

Autor: Frederico Oliveira Toscano. Ilustrador: Celso Vinícius Sales.


Frederico Toscano é formado em Gastronomia e mestrando em História, tendo criado o humorístico Blog da Reclamação, no momento desativado. Atualmente, escreve crônicas bem-humoradas mensalmente para a revista masculina Mensch. É fã de quadrinhos, literatura fantástica, ficção científica e tem uma enorme coleção de arames de saco de pão.

Celso Vinícius Sales é arquiteto formado pela UFPE em 2006. Obteve diversos prêmios nacionais em concursos de projeto de arquitetura. Em 2009, teve breve envolvimento com cinema, realizando o curta-metragem “16° Andar”, o qual foi exibido em alguns festivais do Estado. Como ilustrador, merece destaque seu trabalho para o projeto ”Um Cartaz Para São Paulo”, em 2012, e as ilustrações da série “Cidades Reais e Imaginárias”, publicadas semanalmente no site de arquitetura “Vitruvius”.


 

Ilustrações e textos cedidos para a publicação no site O Recife Assombrado são de propriedade de seus respectivos autores. Está terminantemente proibida a reprodução total ou parcial dos referidos trabalhos sem a devida autorização.


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