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  • Foto do escritorO Recife Assombrado

Instruções para atravessar paredes

Nem todos os moradores daquela casa eram deste mundo… Um conto de Diogo Monteiro.

A casa foi erguida sobre a promessa de um sorriso. Flâmulas e confetes adivinhando o desfile do bom futuro. Estamos ainda aqui, os olhos no horizonte, aguardando o primeiro carro do cortejo. Nenhuma casa acorda como esta, na calda da noite. Não acorde, não acorde. Não veja o expediente por trás das portas.


Um dia vi. A sede acordou antes do dia, me esticava pelos corredores, esponja. Guardei um sonho no quarto, desci a escada, o sono amesquinhado na poeira dos olhos, tateando o caminho nas paredes, pisando molduras de portas, interruptores e retratos de parentes desconhecidos. Cada passo de ida antevendo a volta. Minha boca andava por mim.


Na esquina da sala, a luz amarela da janela arrombou as pálpebras, eu estaquei. A sede correu de volta para o quarto de menino, empacotou-se sob os lençóis, quando a casa começou a falar comigo. Fiquei lá, cãibra na vontade, os olhos batendo asas assustadas.

Eu via dentro ou fora?


Era um buraco recortado do cenário. Um desenho de homem sentado, ereto no sofá, como um barão de foto. Nele, a luz não rebatia, buraco-de-minhoca. Eu forçava a lente recém aberta. Quase eu via olhos pontiagudos na sombra da face, o cigarro acabara de apagar a fumaça na mão escondida. A penumbra guardava-lhe o riso, que continha uma gargalhada.

A luz da rua espetava o olho, esmurrando a janela, ventando meu rosto. Tocavam tambores nas paredes. O piso mareava ressacado, indeciso. Cachos de aranhas caíam do teto?


Não fugi? Por que não fingi continuar detrás do sono, virando os pés – sonâmbulo que lembrou da cama – deixando o intruso para solução do tempo, da aurora? Agora, nenhum de nós podia desviar. Congelamos a cena. Eu o encarava por surpresa. Ele, desafio. Eu, desamparado das pernas, tentando ver dentro da silhueta; ele, guardando nos músculos o movimento que revelaria seu rosto e intenção. Eu saquei primeiro.


Quem é você? Pai! Mãe! Socorram! Quem é? Pare de rir! Mãe! Pai! Tem gente na casa!

Tinha? A sombra sequer tremeu, quando achei a voz num canto de pulmão. Nem quando do alto da escada veio o tropel assustado. Nem quando o pai chegou à sala, me tomou a frente e estapeou o interruptor.


O coração do velho só freou depois do meu, de joelhos, ao me examinar rosto, cabelos, braços. Sem ver machucados, lembrou-se de ter raiva. A mãe defendia, acalma, seria sonambulismo? Havia caso na família. Um primo, uma vez, dirigira quatro quilômetros dormindo, fora encontrado de manhã, na porta da repartição, batucando um memorando no volante. O pai coçava o pescoço, eu olhava pra frente. Sob a lâmpada acesa, uma pilha de almofadas ocupava o lugar do barão do sofá.


Custará tempo para deixar o quarto nas madrugadas. Pago o preço de horas de insônia e alguns despertares úmidos. Lá fora, a casa convida. Quando todos aquietam, eu escuto. É fechar os olhos e atravessar as paredes, entre os transeuntes noturnos. Sei deles, eles de mim. A casa nos apresentou, uma ossuda anfitriã de festa. Seguro meus pés com os dentes. Mordo no cobertor o dia em que aceitarei o passeio. Uma raça de silhuetas. Vê-los será nunca mais sair de entre eles. Nenhuma casa acorda como esta, na calda da noite. Enquanto dormimos, ela afunda a goles miúdos, avança paciente sobre a família.


Eu lembro. Naquela noite de luzes e contraluzes, eu nem ouvia o sermão dedo-em-pé do meu pai, nem me espantava da sede sumida. Eu pensava era em quem teria empilhado as almofadas na exata altura de um homem e as espalharia como braços nos apoios do sofá. Eu fungava o cheiro inegável da fumaça de um cigarro que ninguém viu aceso.


Na madrugada, a casa continua chamando.



 

Autor: Diogo Monteiro.


Ilustração: “Le Visionnaire” (“O Visionário”) (1904), óleo sobre tela de Serafino Macchiati (Musée d’Orsay, Paris).


Diogo Monteiro é jornalista e escritor, embora se considere um “escritor preguiçoso”. Veiculou alguns de seus contos na antologia Tempo Bom, da editora Iluminuras, e nas revistas Vacatussa e Café Colombo. No jornalismo cultural, atuou no caderno Programa, da Folha de Pernambuco, onde manteve a coluna de literatura Trocando em Miúdos, e contribuiu com artigos e entrevistas para outros veículos, como as revistas Cult, Raiz e Continente Multicultural.


Serafino Macchiati (1861 – 1916) foi um pintor e ilustrador italiano.


 

Textos cedidos para a publicação no site O Recife Assombrado são de propriedade de seus respectivos autores. Está terminantemente proibida a reprodução total ou parcial dos referidos trabalhos sem a devida autorização.

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