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Sina: o horror que mora no Sertão


Por Roberto Beltrão


“O Sertão é dentro da gente”. A sentença do mineiro Guimarães Rosa foi levada muito a sério pelo escritor potiguar Márcio Benjamin, que confirma a capacidade de manejar esse mundo árido sertanejo com a publicação de Sina, romance que saiu pela editora Darkside no fim de 2022.


No livro, desfilam personagens que o imaginário popular nordestino consagrou: o contador de histórias, a velha rezadeira, os artistas do circo mambembe, o vaqueiro rude, o padre da pequena paróquia, o “cabra” da fazenda, o menino descalço e com redemoinho no cabelo curto, o “coronel” autoproclamado rei, as cegas profetizas, o beato que hipnotiza fanáticos.

Mas desta vez todas essas criaturas coabitam no “bucho” de um outro personagem, este imenso e tentacular – o próprio Sertão visto com um lugar de horrores contínuos, no qual cada minuto revela ameaças ancestrais. Benjamin chega às terras quase desérticas, no profundo do Nordeste brasileiro, com um olhar muito distinto se comparado a outros autores que descreveram a região. Distante léguas da visão cartesiana (e preconceituosa) de Euclides da Cunha; distinto também ficção realisticamente bela de Graciliano Ramos.


A sina do Sertão de Benjamin é fazer medo. Ressignificar os velhos mitos para potencializar o que de mais assustador existe neles. Conta o autor que seu interesse – para não dizer paixão - pelo sinistro vem da convivência, na juventude, com o terror ensanguentado que escorreu da tela nas salas de cinema das décadas de 1980/90.


Ele lembra que também caminhou por estradas poeirentas, proseou com lavradores, se aqueceu à noite em fogões de lenha, comeu cuscuz e mungunzá salgado sobre mesas simples. Toda essa vivência comprovou que “a relação de nosso povo com o sobrenatural é muito intensa”. E arisca: na Terra do Sol, “o nordestino está muito mais perto do Diabo do que Deus, pelas crueldades que a vida lhe impõe”.


Essa mistura infernal borbulha no caldeirão profundo de Sina. Um romance “em moldura”, como se diz, onde episódios curtos estão amalgamados com uma narrativa maior, a conduzir toda a trama. Enquanto os nós de um mistério amplo – envolvendo desaparecimentos, uma seita apocalíptica e até viagem no tempo - vão se desatando em primeiro plano, o leitor se delicia (ou se aterroriza) com historietas contadas pela figura de Zé Trancoso, uma versão masculina de Sherazade nas mil e uma noites sertanejas.


A linguagem do livro é imagética. Sugere cenários muitos vivos, faz o leitor testemunhar cenas medonhas (às vezes até gore) de perto e “ouvir” os diálogos com se convivesse na mesma casa dos personagens – um clima de permanente agonia íntima. Percebe-se aqui uma proximidade com a narração cinematográfica. Intencional, segundo o autor: “quero que o livro seja lido como se vê um filme, para possa ser entendido por todas as pessoas”.


Ter seus textos entendidos e apreciados não é uma experiência nova para Márcio Benjamin. Vem de uma jornada de mais de dez anos com o horror literário em títulos como Maldito Sertão (contos), Fome (romance) e Agouro (contos), além de ter produzido roteiros para HQs e filmes. Com Sina, o escritor sedimenta as bases de um “Benjaminiverso”, muralha construída por tijolos rústicos a partir da contínua militância no folk horror das obras anteriores.


Portanto, se você estiver disposto a viajar às distantes, secas, amedrontadoras e, ainda sim, tão afetivamente familiares do sertão retratado por Márcio Benjamin, deixe essa sina entrar na sua vida, leitor. Mas aqui cabe um conselho: se escutar as antigas lendas te dá pesadelos, deixe para ler esse volume durante o dia, sob sol do manhã, de preferência...


Sina tem 224 páginas, capa dura e ilustrações do paraibano Shiko



Roberto Beltrão é jornalista e escritor. É curador do Projeto O Recife Assombrado. Organizou duas coletâneas de contos: “Histórias Medonhas do Recife

Assombrado” (2002) e “Malassombramentos” (2010). Escreveu um livro de

crônicas: “Estranhos Mistérios do Recife Assombrado” (2008). E outro de

contos: “Na Escuridão das Brenhas” (2013). Em parceira com a folclorista

Rúbia Lóssio, inventou o “Almanaque Pernambucano dos Causos, Mal-

assombros e Lorotas” (2014). Lançou ainda dois livros de ficção ilustrados: “Sete

Assombrações em Retratos falados” (2016) e “A Sinhá e o Diabo” (2019).

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