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Vampiros gregos cyberpunks: Seja imortal, de Frederico Toscano

Atualizado: 26 de jan. de 2023

Por Bruno Anselmi Matangrano



O que um mundo cibernético hiperconectado, vampiros sensuais trajados com o melhor da alta costura, os deuses do panteão grego e as dificuldades cotidianas na periferia paulistana têm em comum? Embora possa parecer que não existe relação óbvia entre esses elementos, é exatamente dessa mistura inesperada que nasce Seja imortal (2022), romance de Frederico Toscano, mestre e doutor em história, autor dos estudos Yes, nós temos coca-cola (2022) e À francesa: a Belle époque do comer e do beber no Recife (2014), vencedor do Prêmio Jabuti, além das coletâneas de terror Carapaça Escura (2019) e O rinoceronte na parede (2021), obra semifinalista do Prêmio Oceanos.


Em seu primeiro romance, uma obra no mínimo inusitada pela mistura de temas aparentemente desconexos, conhecemos Eudora, uma cientista especializada em compostos químicos, vítima de uma doença degenerativa e funcionária da Aiónios. Essa megacorporação grega, expatriada para o Brasil e instalada no coração da capital paulista, foi fundada e é gerenciada por elegantes e engravatados vampiros, que, ao fazerem o coming out de seus caixões, saíram do anonimato para se revelarem “inofensivos” burocratas.


A história se passa em 2027, quando o furor da novidade já passou e todos já estão habituados a compartilhar a cidade com os bebedores de sangue. Nesse futuro nem tão distante, a megalópole brasileira se transformou: o grego é a língua da moda, máquinas voadoras da empresa sobrevoam a capital, fazendo toda sorte de trabalhos (vigilância, resgate e cobrança, por exemplo), jovens cultuam vampiros como se fossem astros hollywoodianos e idosos rejuvenescem consumindo a “ambrosia”, um medicamento que sintetiza sangue vampírico, concedendo aos mortais saúde e vigor, ao menos enquanto for consumida.


A ambrosia é apenas um dos inúmeros produtos da Aiónios, que, sem ter um setor de predileção, atua em todos os nichos e mercados, mostrando onipotência e onipresença quase divinas, em troca do sangue de endividados. Estes, quando inadimplentes, podem pagar literalmente com sangue, sendo recolhidos por drones e levados a fazendas humanas, onde ficam em estado de coma induzido até terem pagado completamente o que devem. Numa metáfora anticapitalista que evoca a dominação futurista à Matrix (a cena das fazendas de sangue lembra bastante o local onde Neo acorda pela primeira vez) e a exposição vampírica de forma empreendedora como em True Blood (onde também vemos um sangue enlatado que possibilita o coming out dos vampiros), Seja Imortal mostra o poder de sedução dos vampiros e do dinheiro, ao mesmo tempo denunciando os horrores por trás da beleza e luxo aparentes, maquiados pela elegância da arte e cultura neo-helênicas.


Organizado de forma fragmentária e não cronológica, o romance vai apresentando os vampiros em pequenas doses, conforme Eudora os conhece e se aproxima de alguns deles. Em meio aos capítulos, lemos e-mails, anúncios, fragmentos de diários, que surpreendem – e nos fazem rir muito –, ao mesmo tempo em que ajudam a compor um mosaico temporal, levantando inúmeras questões: quais são as reais intenções dos vampiros? O fato de algumas personagens históricas de passado mais do que duvidoso, como Elizabeth Bathori, darem as caras, não nos deixa enganar, o que nos leva a desconfiar da própria Eudora, cuja história acompanhamos, descobrindo pouco a pouco suas intenções, igualmente ambíguas.

A princípio, o plano da cientista parece muito claro: convencer os vampiros de sua importância na empresa, propondo-lhes uma experiência única: uma droga que, uma vez injetada no sangue de um mortal, proporciona àquele que o bebesse um prazer sem igual, quase orgástico, algo que os imortais não experimentam há séculos. Desse modo, ela espera ser alçada um dia ao mesmo estatuto de imortal e, com isso, curar-se da doença que a está consumindo. Apesar disso, outras engrenagens parecem estar girando e o leitor não sabe exatamente em quem pode confiar.


Paralelamente, conhecemos o passado difícil de Eudora, a relação de amor e ódio com Thalia, a irmã rebelde e irresponsável, e a amizade inabalável da ativista Anastasia, dona de um centro de apoio para pessoas com necessidades especiais, que odeia os vampiros com todas as forças e tudo o que eles representam. Pois, se à primeira vista, estes podem parecer inofensivos e assustadoramente encantadores, com um comportamento que não parece coadunar à forma predatória da empresa, ainda assim, são vampiros, no sentido mais clássico possível do termo: seres de imenso poder, entediados e com uma inesgotável sede de sangue, apesar de terem (ou assim dizem) abdicado de bebê-lo da fonte, em prol da integração e segurança no mundo moderno. E, afinal, por mais generosos que possam parecer individualmente, ainda são os gestores dessa megacorporação, que, como toda grande empresa, só se preocupa com lucros e seus próprios interesses.


Aiónios revela-se, portanto, a grande protagonista e, ao mesmo tempo, a antagonista dessa aventura: grande personagem sem face, gerida na superfície por vampiros de segundo nível, mas escondendo nas profundezas da capital paulista segredos escusos e, no cume de seu arranha-céu, os verdadeiros poderosos, os Gerontes, os únicos seres capazes de conceder a vida eterna a um ser humano, criaturas de imenso poder, nunca vistas por nenhum mortal, e cujo segredo remonta às origens da sociedade ocidental. Tal como os deuses gregos, são onipresentes em sua ausência; são um conceito, uma ideia, uma força governando esse polvo de múltiplos tentáculos, que, entre diversos empreendimentos, em todo tipo de produtos e serviços, no fim, tem apenas um objetivo: produzir o sangue filtrado que alimenta a toda a raça de vampiros.


Ao leitor, fica o gosto da descoberta: (re)conhecer uma São Paulo ainda mais cindida em classes, com mais pobreza, mais tecnologia e mais glamour, onde vampiros se pavoneiam no Instagram em posts patrocinados pela Armani enquanto pessoas afogadas em dívida se esvaem em tubos em cantos escuros. Eudora vai conseguir transformar-se naquilo que mais teme e livrar-se das dores e limitações de seu corpo humano ou vai deixar-se convencer por sua melhor amiga e combater aqueles que, fingindo ajudar, usurpam dos necessitados em seu próprio benefício? A decisão não é fácil; afinal, a publicidade é onipresente: Seja imortal. Essa frase que dá título ao livro é um convite, uma tentação, para aqueles que ainda não provaram a ambrosia terem uma pequena amostra da imortalidade, a preços nada módicos, é claro.




Bruno Anselmi Matangrano é Bacharel, Mestre e Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), professor na Escola Normal Superior de Lyon (França) e pesquisador de literatura fantástica. Além de várias traduções, artigos e contos, publicou os livros Contos para uma Noite Fria (2014), Os Ebálidas de Pseudo-Outis (2022) e Fantástico Brasileiro: o insólito literário do romantismo ao fantasismo (2018), com Enéias Tavares

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