As Cidades Sem Sol

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Autor: Ivon Rabêlo

Ilustrador: Celso Vinícius Sales

Numa incerta manhã, se bem me lembro, entro no prédio da Prefeitura Municipal de Teriza e me deparo com uma foto aérea gigantesca da cidade, presa na parede da sala de atendimento e espera no gabinete do prefeito. Não sei, ainda hoje, por qual motivo havia ido até lá. Ao me deparar com a imagem esqueço tudo o que tinha de fazer.

Disseram-me ser Teriza a cidade com maior área geograficamente delimitada do estado embora a parte habitável se resuma a apenas um quinto desse total, assim eu constatei ao ver as legendas dos pequenos gráficos margeando a fotografia na parede. Esquadrinhando a imagem percebe-se a zona urbana apinhada de casas coloridas, vias sinuosas e pequenos prédios esparsos estendendo-se em ruas que partem das proximidades do seu centro e se alongam em direção a quatro cantos, traçando caminhos pelos quais se pode entrar ou sair da cidade.

Inserida em uma depressão geológica que lhe confere um charme provinciano ao ser avistada pela primeira vez, mesmo parecendo estar desolada durante os domingos fantasmagóricos, Teriza guarda claramente em seu formato a aparência de uma besta quadrúpede cujas patas extensas e disformes eram utilizadas como vias de acesso às cidades circunvizinhas.

Quem a visse e conhecesse da mesma maneira que eu naquela foto certamente se enterneceria, a despeito de tudo o que ela escondia. Nem tanto ela, pequena cidade calma e poeirenta, mas suas irmãs vizinhas, cidades sem sol, territórios infames de sombra e assombração.

Em direção ao norte chega-se a Neorita, cidade-satélite com ruas largas e compridas onde tudo parecia ser mais desenvolvido e promissor. Uma terça parte de seus munícipes dormia de cabeça para baixo, suspensos nos tetos das casas; sendo aberrações, não havia chão no qual seus pés tocassem, a telecinese os fazia levitar e todos se divertiam sendo promíscuos. Reza a lenda que as pessoas de vida ortodoxa naquela cidade receberam uma instrução dada pelos inumanos recém chegados na qual estavam determinados os terrenos particulares da região a serem transformados em canteiros de obras para a construção de vias de acesso a grandes mananciais de sangue, transpostos e conduzidos aos reservatórios instalados em terras a serem desapropriadas com violência e morte. Muitos donos de terras sucumbiram enquanto outros resistiram e ainda vivem em fuga, esperando o socorro de viajantes que porventura surgissem naquelas bandas. Jaime Capistrano foi um desses desesperados. Ergueu fortuna no estrangeiro criando ovelhas e cultivando algodão, triste sina a dele, ficou rico para terminar a vida correndo nu, alheio a todos, gritando em uma língua estranha segredos cujas revelações somente ele compreendia acerca dos hematófagos libertos na escuridão, a sujar as margens do asfalto velho de Neorita com os cacos dos dentes daqueles que não conseguiram escapar. Ainda hoje, segundo afirma a linhagem dos remanescentes, os vampiros assassinos enfiam a faca peixeira nos tendões do pescoço de suas vítimas somente para perfurar a voz de quem insiste em se arvorar pelas estradas.

A oeste, no trajeto para Gadossa, as estradas da região se perdem de vista apesar da nítida certeza de podermos enroscá-las na palma da mão. Eu as conheço bem, sei de cada percurso. Nas proximidades do Ferro Velho, alcançando as vielas do bairro, avistam-se casebres caiados, calçadas pedregosas e becos lamacentos que enveredam-se mais além em um caminho discreto dentro do matagal pelo qual se chega ao único açude do entorno, fronteira entre as duas cidades vizinhas, lugar mágico e terrível, há tempos enfeitiçando os notívagos. Nicho cru de lama e céu tanto para deleite quanto para choro convulso, as margens do açude são paraísos perdidos nas madrugadas sem estrelas, ambiente propício para o delírio, o sexo proibido e o crime. Adentrando os limites dessa cidade fria tem-se a zona de sombra mais intensa do entorno onde as janelas das casas são invisíveis embora de variados estilos, formatos e tamanhos, através das quais os moradores mais corajosos tentam ver o que se esconde no escuro. Em noites sem lua, subindo do fundo da terra até a superfície, surge a moça de vestido escuro com longas mangas de renda e um véu de tule negro encobrindo-lhe o rosto. Esse vulto assemelha-se a uma viúva em desgraça de maldição ou a uma santa às avessas, tão soturna sua aparição. Dizem ser a parte restante do corpo da fada Melusina em surto de vingança, após esfolar o amante e comer-lhe o coração. Quer seja viúva, santa ou fada, ela jamais se deixa ver senão de modo intermitente, como os eclipses. Muitas vezes ela surge depois do pio de um pássaro noturno e sempre pela manhã encontramos os cavalos do estábulo com as crinas fortemente trançadas. Segundo velhas superstições tornadas tradições, por ocasião do nascimento de uma criança as famílias de Gadossa jamais deixam de colocar três talheres de alumínio em cima de uma mesa farta, arrumada e posta num cômodo bem isolado do resto da casa para que a fada permita a esse novo habitante ter o destino livre de ambições desmedidas e paixões frustradas. No entanto nem sempre isso acontece. Na maioria das vezes os homens e mulheres de lá escolhem percorrer estradas longas e espinhosas.

Ao sul, pelo caminho de saída para a cidadela de Baiatia, existia um coqueiral na beira da estrada nos dois sentidos ao longo da via, cultivado há muito tempo atrás não se sabe por quem, causando na população um senso preciso de orientação geográfica e tendo sido usado como ponto de referência para os viajantes até os dias de hoje, mesmo agora quando já não existe mais nem dois por cento da quantidade de coqueiros que havia antes. Foi nesse trecho do caminho entre as duas cidades onde morreu Marcelinho Xavier, jovem bonito e adorado por muitos dos que o conheceram, vitimado em um acidente de motocicleta, deixando todo o mundo abalado. Disseram ter havido uma festança de rua em Teriza na qual ele havia bebido o suficiente para cuspir balas fumegantes de revólver calibre 38, amedrontando inclusive o exu-caveira que ele dizia ter encantado para servi-lo como escravo, suprindo as suas vontades materiais e realizando seus desejos carnais. Disposto a voltar para casa em Baiatia depois da festa, naquela madrugada sem lua, no meio da viagem ele adormeceu e a moto o conduziu até o inferno em altíssima velocidade. Distante de Teriza uns oitenta quilômetros, a pequeníssima Baiatia parece estar fincada no fim do mundo, lugarejo onde o demônio recuperou as botas perdidas e o silêncio tomou conta do vento e da solidão das pessoas. Em suas ruas de barro batido, repletas de animais, faz anos que o velho mendigo esfarrapado e manco caminha com as unhas fincadas nas palmas das mãos, olhar incisivo de sangue a indicar aos poucos moradores e parcos viajantes o altar no qual sacrificam-se bodes e galos e como devem ser preparadas as oferendas para os exus que, não sabem eles, apenas se alimentam com a vida esvaída dos que foram mortos na estrada.

Em sentido leste, nos arredores de Vedova, pode-se contemplar fascinado o vale dos extintos Carajaús com sua diversidade de plantas venenosas, animais peçonhentos e atalhos espinhosos. Dos bisavós paternos herdei a baixa estatura daquele povo e o conhecimento dos segredos da região, intensificado após ter sido levado para Teriza aos doze anos de idade. Meus pais diziam ser aquele o destino incerto para quem precisasse de trabalho, segurança e conforto, pelo fato insólito de que dentro da cidade ocorria com grande frequência a nossa própria ausência, mirada somente através de binóculos potentes durante um passeio pelas calçadas limpas e movimentadas. Tudo ali é ilusão, praticada ao longo dos tempos e do extenso caminho até o litoral onde está fincada a cidade de Rasif, vasta metrópole cheia de sombras severas e distante mais de quatrocentos quilômetros da minha terra natal. De imediato eu não saberia precisar, porém a certeza agora é esta: Vedova nunca foi a nossa casa. Éramos três a habitar a moradia aconchegante e conosco a nossa mãe, sempre discreta e delicada. A irmandade era coberta por um halo fino de adoração, embora a cumplicidade existente entre os outros dois fosse fatalmente desconcertante para mim. Pertencíamos a um grupo já dizimado, possuindo no sangue os mesmos elementos, o mesmo mapeamento, a mesma informação, no entanto com intensidades diferentes. Eu sentia apenas a pulsação em uma leve escala, querendo saber como e porque ocorria a transubstanciação, abafando o conhecimento da técnica com emoções e abstrações diversas. O mais velho de nós era o mais hábil, detinha o completo conhecimento assumindo formas sem esforço algum. O outro irmão era um ser dúbio. Nunca soube de onde vinha aquele aroma exalado e qual encanto havia nele de tão incomum. Igual a tudo na cidade, as dúvidas se mesclam com as lembranças e tornam-se ambas tentativas frustradas de beber um pouco mais da sabedoria do incognoscível. Quando penso em minha solidão naqueles instantes vejo que nunca existiu alguém comigo. Há somente a esperança, esteja eu ainda por lá ou caminhando na estrada em direção a Teriza.

Quando se vive em cidades pequenas desde a infância invariavelmente se sabe muita coisa sobre a região e os seus moradores, bem como acerca daquilo que nos contam os fatos ocorridos para além dos limites urbanos. Verdades ou apenas boatos, certamente se forjam situações adentrando pela inconsciência e perambulando na imaginação dos habitantes e dos viajantes, fossem ou não os acontecimentos semelhantes a tentáculos de um polvo aprisionado, lanhando as paredes do aquário imenso e acoplando-se irremediavelmente à face fria do vidro da nossa memória.


Ivon Rabêlo nasceu em Sertânia (PE) em 1972 e atualmente mora no Recife. É escritor e professor, Mestre em Literatura e Interculturalidade (UEPB/2010), com estudos publicados e apresentados em diversos encontros acadêmicos. Publicou pela editora Mariposa Cartonera o livro de poemas “As vísceras de Vinícius” (2015) e tem poemas e texto em prosa publicados pelo Portal Interpoética.

Celso Vinícius Sales é arquiteto formado pela UFPE em 2006. Obteve diversos prêmios nacionais em concursos de projeto de arquitetura. Em 2009, teve breve envolvimento com cinema, realizando o curta-metragem “16° Andar”, o qual foi exibido em alguns festivais do Estado. Como ilustrador, merece destaque seu trabalho para o projeto ”Um Cartaz Para São Paulo”, em 2012, e as ilustrações da série “Cidades Reais e Imaginárias”, publicadas semanalmente no site de arquitetura “Vitruvius”.

Ilustrações e textos cedidos para a publicação no site O Recife Assombrado são de propriedade de seus respectivos autores. Está terminantemente proibida a reprodução total ou parcial dos referidos trabalhos sem a devida autorização.

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