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  • recifeassombrado6

No alto da escada

Testemunho arrepiante do escritor Roberto Beltrão




Nasci e moro no Recife, capital conhecida como “a cidade mais assombrada do Brasil”. Mas meu mais intenso e assustador contato com o sobrenatural se deu num lugar bem diferente...  Em meados da década de 1990, recebi uma proposta para trabalhar em Caruaru, munícipio próspero no Agreste de Pernambuco -  fica a uns 160 km do litoral. Aceitei o desafio e fui morar lá. Para enfrentar melhor as despesas nessa nova empreitada, dividi o aluguel de uma casa com uma colega de empresa.


Era uma residência simples, mas bem confortável para duas pessoas. Considerávamos uma sorte termos conseguido alugar o imóvel já mobiliado por um valor bem abaixo do preço de mercado. Um canto tão bacana por um pechincha? Acho que a ingenuidade não nos permitiu nenhuma desconfiança. Ficava numa rua calma, próxima ao tradicional Cemitério São Roque. Tinha três quartos: dois no térreo e outro num pequeno andar de cima, ao qual só se tinha acesso por uma estreita escada em caracol feita de ferro. Tudo correu bem nas duas primeiras semanas.


Até que, numa noite de sexta-feira, o nosso tranquilo lar improvisado virou cenário de pesadelo. Eu e minha colega tínhamos jantado e nos recolhemos aos nossos respectivos aposentos – era por volta das 11h30. Estava quase cochilando na minha rede e com a luz apagada, quando fui despertado por batidas numa porta de madeira: toc, toc, toc. As pancadas se repetiram mais duas vezes, mas não mexi. A luta interna entre o temor e a curiosidade me paralisaram. Dava para perceber que as batidas vinham do andar de cima, o qual deveria estar desocupado. Quem estaria batendo então? Atordoado por essa incerteza, cai da rede ao ouvir baterem na porto do MEU QUARTO: toc, toc, toc.  Mas era a colega à minha procura.


- Beto, levanta aí! Tá ouvindo esse barulho?


Deixei ela entrar no meu cômodo, confirmei que também escutava os estranhos ruídos. As batidas não cessavam. Sempre regulares, cada vez mais intensas: TOC, TOC, TOC! Tomamos coragem e subimos ao pavimento superior. Ladrão não deveria ser – quem rouba procura ficar em silêncio, né? Devia um bicho preso lá, quem sabe... Pesamos na escada em caracol com as pernas trêmulas. Devagar, abrimos a porta do quarto. O acender da lâmpada revelou que não nada (nem ninguém) no local. Apenas uma cômoda com gavetas de puxadores coloridos e um berço branco sem colchão.


Descemos rápido, sem trocar uma palavra – aliviados, sim, mas emudecidos pela falta de explicação. Nos despedimos e tornamos aos nossos dormitórios trocando risadas nervosas: boa noite e até amanhã! E assim que sosseguei de novo na minha rede, recoberto pelo breu que descansava a visão, tornei a escutar as batidas - TOC, TOC, TOC!  As pancadas se repetiram e se repetiram madrugada adentro. Decidi não chamar mais minha colega. Ela, por certo, pensou o mesmo: melhor ficar quieto e fingir que nada de estranho estava acontecendo. Me cobri por inteiro com a rede, feito lagarta no casulo.


 Apesar da noite gelada, o suor descia pela testa. TOC, TOC, TOC!   Só lá para as tantas fui nocauteado pela exaustão. Pela manhã, sentia a ressaca da incredulidade: acontecera mesmo ou foi tudo um sonho ruim? Quando tomava café na mesa da cozinha, minha colega chegou esbaforida. Ela não tinha conseguido dormir. E, assim que sol apareceu, saiu à rua para tomar ar. Nessa hora, uma vizinha idosa já varria a calçada. Ao ver cara de aflita da minha amiga, a senhora lhe pôs a mão enrugada no ombro.


- Foi o malassombro, né minha filha? Você não foi a primeira. É o espírito de um menino que morreu aí. Tinha uns cinco anos, o bichinho. Era danado e gostava de bater nas portas...


Minha colega tinha lágrimas nos olhos abatidos pela insônia quando me relatou esse encontro. Na semana seguinte, nos mudamos para um apartamento no Centro de Caruaru.

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